domingo, 26 de outubro de 2025

Suplementos alimentares ou veneno?



O mercado que não para de crescer
Os suplementos alimentares ganharam espaço no cotidiano de atletas profissionais e amadores. Lojas especializadas, academias e até farmácias oferecem uma infinidade de opções, prometendo ganhos rápidos em desempenho e recuperação. Mas o consumo acelerado nem sempre vem acompanhado de orientação adequada, e esse é o ponto onde o risco começa.

Quando a promessa vira problema
Estudos da Anvisa e de universidades brasileiras já identificaram suplementos adulterados ou contaminados com substâncias proibidas. O atleta que consome sem saber pode ser punido em exames antidoping e até ter a carreira prejudicada. Além disso, há riscos sérios à saúde, como sobrecarga renal, desequilíbrio hormonal e, no caso dos termogênicos e estimulantes, problemas cardíacos graves quando usados de forma indiscriminada.

Casos que chamam a atenção
No cenário internacional, a patinadora russa Kamila Valieva ficou mundialmente conhecida após um caso de doping em 2022, que trouxe à tona a discussão sobre contaminação e responsabilidade do atleta. No Brasil, investigações recentes da Anvisa encontraram lotes de suplementos com substâncias não declaradas nos rótulos. Esses exemplos mostram que o problema não está restrito a atletas de elite, mas pode atingir qualquer praticante.

A fragilidade da regulamentação
Embora o Brasil tenha avançado, a fiscalização ainda enfrenta dificuldades. A Anvisa regula a produção e exige registro, mas muitos suplementos chegam ao mercado por importação irregular ou pela internet, fora do controle sanitário. Isso cria um ambiente onde o consumidor corre risco e o professor ou treinador precisa redobrar a atenção ao orientar seus alunos.

Opções seguras e acessíveis
Nem todo atleta tem condições de consultar um nutricionista ou médico regularmente. Isso não significa que a escolha deva ser às cegas. Uma alimentação balanceada continua sendo a base mais segura e eficaz, reduzindo até mesmo a necessidade de suplementação. O uso consciente, optando por marcas que tenham certificação reconhecida, já é um passo importante. Quando possível, procurar orientação de profissionais de saúde em atendimentos públicos, programas de universidades ou iniciativas de esporte e saúde da própria cidade pode ser uma alternativa acessível.

Como se proteger na prática
A primeira regra é não confiar em promessas milagrosas. Ler os rótulos com atenção, checar se o produto está registrado na Anvisa e evitar comprar pela internet sem procedência é o mínimo. O atleta precisa entender que o suplemento nunca deve substituir uma base sólida de treino e alimentação adequada, mas sim complementar de forma responsável quando realmente necessário.

O caminho para avançar
Mais do que responsabilizar apenas o consumidor, é hora de o poder público criar redes de apoio e informação. Uma medida prática seria que cada secretaria municipal de esportes, em parceria com as de saúde, disponibilizasse cartilhas claras e cursos rápidos sobre o uso seguro de suplementos. Assim, qualquer atleta, mesmo sem acesso a nutricionistas particulares, teria condições de fazer escolhas mais seguras. Informação acessível e descentralizada é a melhor arma contra os riscos que rondam o mercado da suplementação.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques


terça-feira, 21 de outubro de 2025

Quando o corpo treina e a mente desaba



O peso invisível que atinge qualquer atleta
Depressão no esporte é uma realidade que vai além das grandes competições. Ela está presente em academias, quadras, pistas e tatames. O atleta, acostumado a ser exemplo de força, nem sempre encontra espaço para admitir fraqueza. A cobrança constante, as comparações e o medo de decepcionar criam uma pressão silenciosa que corrói por dentro.

A motivação que desaparece
O corpo pode até estar em forma, mas a mente cansada transforma o treino em fardo. O que antes era prazer passa a ser obrigação. Quando o estímulo desaparece, muitos acreditam que falta força de vontade, mas o que realmente falta é energia emocional. É nesse ponto que a disciplina, tão valorizada, precisa deixar de ser punição e voltar a ser propósito.

Disciplina é sustento, não castigo
O verdadeiro atleta não é o que sempre quer treinar, mas o que treina mesmo quando não quer. É o compromisso com o processo que sustenta nos dias ruins. O resultado vem e vai, mas a constância é o que mantém o corpo ativo e a mente protegida. Quando o treino vira parte equilibrada da vida, e não o centro absoluto dela, o esporte passa a curar novamente.

Casos que fizeram o mundo olhar diferente
Grandes nomes do esporte internacional já expuseram publicamente suas batalhas contra a depressão. Michael Phelps, o maior medalhista olímpico da história, revelou ter pensado em desistir da vida mesmo no auge das conquistas. Simone Biles, ginasta americana, parou uma final olímpica para cuidar da saúde mental e foi aplaudida por isso. São exemplos de que até quem alcança o topo pode perder o chão.

O corpo forte e a mente cansada
Quando a mente desaba, o corpo obedece menos. O rendimento cai, as lesões aumentam e o prazer desaparece. É um ciclo que só se rompe quando se entende que cuidar da mente é parte do treino. Pausas, descanso, sono e equilíbrio não são fraquezas, são estratégias.

Reconstruindo o ânimo
Superar a depressão no esporte exige mais do que boa vontade. Requer reorganizar a rotina, valorizar pequenas vitórias e permitir-se pedir ajuda. Nem sempre há acesso fácil a terapia ou acompanhamento profissional, mas conversar, dividir o peso e retomar aos poucos o prazer de estar ativo já é o primeiro passo. Alimentação equilibrada, vínculos afetivos e novos objetivos dentro da realidade de cada um ajudam a reestabelecer o sentido do treino.

O verdadeiro troféu
A maior conquista de um atleta não é o ouro, é o equilíbrio. Cuidar da mente, respeitar o corpo e manter o compromisso com o próprio bem-estar é o que transforma o esporte em um ato de vida. Quando o esportista consegue firmar um compromisso genuíno com o esporte que pratica e consigo mesmo, encontra o caminho para vencer a depressão. A disciplina vence o desânimo quando é guiada por propósito, e o propósito só nasce quando o atleta se reconhece inteiro.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Parte da outorga onerosa para o esporte

 


O dinheiro que nasce da cidade
Itajaí aprovou que uma parte mínima da outorga onerosa, o chamado solo criado, seja dedicada ao esporte. É uma decisão urbanística com efeito direto na vida de quem treina, compete e educa por meio da atividade esportiva. O instrumento é previsto no Estatuto da Cidade e permite que o adensamento construtivo gere contrapartida financeira para políticas públicas locais, aqui com um destino claro, manutenção e obras esportivas.

A regra dos 10% e o que ela muda
Com a destinação mínima de 10% da outorga para o esporte, a cidade deixa de depender apenas do orçamento ordinário da FMEL e cria um fluxo carimbado para infraestrutura. Em termos práticos, cada real arrecadado com solo criado passa a reservar uma fração obrigatória para quadras, pistas, ginásios, centros de iniciação e equipamentos de lazer. Itajaí entra no grupo reduzido de municípios que dão prioridade explícita ao esporte dentro da política urbana.

Quanto isso pode render na prática
A LOA 2025 projeta receita total acima de R$ 3,2 bilhões, mas a prefeitura não divulgou oficialmente, em canal público, uma previsão fechada de arrecadação com outorga para 2025. Especula-se o valor de R$ 90 milhões. Com isso o esporte ganharia algo próximo de R$ 9 milhões no ano. Independentemente do valor final arrecadado, a certeza de destinação fortalece a política pública, acelera reformas e amplia a rede esportiva da cidade.

O que dá para fazer com esse dinheiro
Com valores nessa faixa é possível resolver gargalos históricos e dar um salto de qualidade: revitalizar espaços esportivos esquecidos, ampliar a rede comunitária e oferecer estruturas modernas para jovens e atletas. O princípio é simples, priorizar onde mais gente treina, planejar de forma estratégica a expansão dos polos e garantir acessibilidade e segurança.

Além do ordinário, sem travar a FMEL
Esse fluxo é complementar ao orçamento anual da fundação e permite que a FMEL mantenha programas e bolsas com o caixa ordinário, enquanto a outorga sustenta obras e manutenção pesada. A combinação reduz o vai e vem burocrático, protege o planejamento e acelera entregas que o atleta e o professor sentem na ponta.

Da regra ao resultado
A outorga onerosa, por lei, entra no orçamento como receita da Secretaria de Desenvolvimento Urbano. É esse setor que administra a dotação e autoriza qualquer aplicação. Por isso, a FMEL precisa elaborar projetos completos e protocolar na secretaria, cumprindo todas as exigências de engenharia, acessibilidade e compatibilidade com o Plano Diretor. Só depois dessa etapa a verba pode ser liberada para a execução. Em outras palavras, o recurso existe, mas só vira quadras, ginásios e praças quando esporte e planejamento urbano trabalham juntos.

Itajaí na frente, de novo
Ao vincular o solo criado ao esporte, Itajaí conecta desenvolvimento urbano a saúde, educação e inclusão. É uma escolha que conversa com o Plano Diretor e com a vocação esportiva da cidade, e pode servir de referência para outros municípios que ainda tratam a outorga apenas como receita genérica. O passo agora é transformar a regra em entregas visíveis, quadras cheias, centros vivos e um legado que se mede pelo acesso, não só pelo concreto.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques

sábado, 4 de outubro de 2025

Importar medalhas ou formar atletas?

 


O jogo da importação

Em Santa Catarina virou rotina ver cidades montando elencos para JASC, Joguinhos e OLESC com atletas de fora. O resultado chega mais rápido, mas a pergunta é simples e incômoda, a que custo. Quando a camisa muda a cada temporada e o vínculo com a comunidade se perde, a vitória do ano seguinte cobra a conta do ano passado. O torcedor comemora, a base assiste de longe e o legado não aparece.

O que os regulamentos permitem

As regras da Fesporte permitem convocação de atletas de outros municípios por modalidade e naipe, dentro de limites definidos em regulamento geral. Em 2025 também houve atualização que trata da participação de atletas de fora em número restrito. Ou seja, a importação não é ilegal, é uma escolha de gestão. O ponto é equilibrar o permitido com um projeto que valorize quem é formado em casa. Além disso, os altos custos envolvidos nessa importação poderiam ser melhor aplicados no fortalecimento do esporte comunitário e de base, multiplicando resultados de forma mais duradoura.

O pêndulo começou a mexer

A pauta já chegou ao debate oficial no estado. A Assembleia Legislativa discutiu em audiências públicas a presença de atletas de fora de Santa Catarina e aprovou norma específica no vôlei de praia para conter distorções. Há um movimento claro por critérios mais rigorosos e por incentivo à formação local. Para quem gere esporte municipal, ignorar esse vento de mudança é perder contato com a realidade.

Itajaí entre resultado e legado

Itajaí tem capacidade técnica e estrutura para competir com protagonismo, mas o caminho mais inteligente é o de duas pistas. A primeira, manter elencos competitivos sem ultrapassar os limites éticos e financeiros. A segunda, transformar a base em prioridade estratégica. Isso significa fortalecer escolinhas, integrar clubes e projetos ao calendário da cidade, dar minutagem real ao atleta local e atrelar parte do investimento de rendimento à presença de talentos formados aqui. O resultado importa, mas o legado é o que fica quando o placar apaga.

O que outras cidades já ensaiam

Há municípios que começaram a ajustar critérios internos, limitando convocações externas e valorizando atletas vinculados à rede local de formação. Em outros, a discussão entrou no calendário oficial e nos conselhos de esporte como métrica de política pública. A tendência é clara, menos atalho, mais processo. O título vem para somar, não para substituir o trabalho de base.

O caminho que vale a pena

A importação responsável pode compor elenco e acelerar ciclos, mas não substitui a construção diária. Para Itajaí, a rota vencedora é estabelecer metas anuais de participação de atletas da casa, premiar projetos que revelam gente, mediar acordos entre escolas, clubes e fundação para que a base tenha trilha até o rendimento e blindar orçamento mínimo para formação. Quem aposta na base cria identidade, reduz dependência de mercado e transforma resultado em patrimônio esportivo da cidade.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques