segunda-feira, 27 de abril de 2026

Escolinha de Base ou Maquiagem Esportiva


O que o ambiente define antes de qualquer treinador

O desenvolvimento esportivo de uma criança começa antes da primeira instrução técnica. O ambiente em que ela pratica determina o quanto ela consegue absorver, progredir e desenvolver vínculos consistentes com a modalidade. Um polo esportivo estruturado oferece espaço adequado, equipamentos corretos, silêncio funcional e foco pedagógico. Uma escola é um ambiente de trânsito, barulho, recreio, circulação constante de pessoas e estímulos concorrentes. Essas duas realidades produzem experiências completamente diferentes e tratá-las como equivalentes é o primeiro erro da gestão pública esportiva.

Prática esportiva escolar não sistematizada não é iniciação

O que ocorre dentro das escolas fora da aula formal de educação física recebe o nome correto de prática esportiva não sistematizada em contexto escolar. Ela pode ter orientação de um profissional e alguma organização, mas não garante progressão consistente. O controle pedagógico é menor, a interferência do ambiente é constante e a intencionalidade técnica raramente sobrevive à rotina escolar. Essa experiência tem valor como estímulo ao movimento. O problema está em apresentá-la ao gestor e à família como iniciação esportiva real, pois é uma afirmação que não se sustenta tecnicamente.

O que a iniciação esportiva sistematizada exige de verdade

A iniciação esportiva de verdade acontece em ambiente controlado e preparado para isso. Planejamento de aula, progressão técnica e tática, foco na modalidade, equipamentos adequados e menor interferência externa são condições mínimas para que o desenvolvimento infantil dentro do esporte seja consistente e mensurável. Esse nível de organização exige um polo esportivo com estrutura própria, onde a criança chega para treinar e sai com algo concreto desenvolvido naquele dia. A disciplina, o foco e o ambiente correto são variáveis pedagógicas que interferem diretamente na qualidade do aprendizado motor.

A desonestidade do número como resultado

Quando um gestor público utiliza o ambiente escolar para captar crianças em massa, registrá-las em um programa esportivo e apresentar esse volume como prova de iniciação esportiva, está praticando uma inversão de lógica. O número de participantes nunca foi sinônimo de qualidade de desenvolvimento. Encher uma lista com alunos que mal conseguem se concentrar em meio ao barulho do recreio e chamar isso de escolinha de base é uma maquiagem administrativa que prejudica as crianças, engana as famílias e distorce os dados da política pública. O gestor honesto sabe distinguir o que faz do que apenas apresenta.

O papel do poder público é criar a estrutura certa

A obrigação da gestão pública no esporte infantil é gerar condições. Isso significa investir em polos esportivos estruturados, com espaço adequado à modalidade, equipamentos em condições de uso, profissionais qualificados e planejamento pedagógico contínuo. Significa criar um ambiente onde a criança entre com foco, treine com progressão e saia com desenvolvimento real. Projetos esportivos que operam com essa lógica produzem atletas, hábitos e saúde de verdade. Os que operam com a lógica do número produzem relatórios. A diferença entre os dois está na honestidade de quem decide onde e como o esporte público acontece.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram @airlonjaques



domingo, 19 de abril de 2026

Esporte: A Barreira Contra as Drogas em Itajaí

 


O Cenário Local e a Proteção Necessária

O avanço das drogas entre os jovens de Itajaí é uma realidade que exige ações concretas da gestão pública. A vulnerabilidade social nas periferias e a busca por aceitação tornam nossos adolescentes alvos fáceis. Nesse contexto, o esporte deixa de ser apenas lazer e se torna uma ferramenta estratégica de segurança pública e saúde. A prática esportiva ocupa o tempo, estabelece metas e cria um senso de identidade que protege o jovem das escolhas de risco.

O Poder da Rotina e da Disciplina

Dentro das quadras e campos da nossa cidade, o jovem aprende o valor do esforço e as consequências da falta de foco. O treinamento exige um corpo saudável e uma mente limpa, o que naturalmente afasta o interesse por substâncias entorpecentes. A disciplina imposta pelo técnico e o respeito aos companheiros de equipe formam o caráter necessário para dizer "não" às pressões externas. O esporte entrega o bem-estar que a droga apenas promete de forma ilusória.

A Responsabilidade da Gestão em Itajaí

A Lei nº 11.343/2006 é clara: o município tem o dever de promover a prevenção. Em Itajaí, temos uma estrutura robusta na FMEL que precisa ser utilizada como escudo. A presença de profissionais como psicólogos e assistentes sociais dentro da fundação permite identificar o jovem em risco antes que ele se perca para o tráfico ou para o vício.

Capacitação Técnica e Olhar Atento

Os professores e técnicos da FMEL precisam estar preparados para atuar como a primeira linha de defesa. Essa preparação ocorre através de treinamentos específicos para identificar sinais de mudanças bruscas de comportamento, queda no rendimento físico ou isolamento social dos alunos. O profissional capacitado sabe abordar o jovem com empatia e autoridade, transformando o treino em um espaço de diálogo e confiança, onde o acolhimento técnico precede o encaminhamento especializado.

Ações Estratégicas e o Futuro da Juventude

A gestão do esporte em Itajaí deve estabelecer protocolos que conectem o aluno em risco imediatamente à rede de apoio municipal. Levar nossas escolinhas para os bairros com maiores índices de criminalidade descentraliza o esporte e ocupa o território com saúde, retirando o espaço do tráfico. Ao transformarmos nossos festivais e competições em vitrines de cidadania, reafirmamos que o caminho do esporte é a única escolha viável. Investir nessas políticas protege a próxima geração de itajaienses e exige gestão focada no dia a dia da nossa cidade.


Airlon Jaques
Profissional Ed. Física, Gestor Público e Escritor.
Instagram @airlonjaques



domingo, 12 de abril de 2026

A Governança em Rede com o Financiamento por Demanda

 


O Fortalecimento da Estrutura Esportiva Municipal

A gestão do esporte nos municípios pode avançar para um novo patamar de eficiência ao integrar estratégias modernas de atendimento à estrutura já existente. O modelo tradicional de execução direta, operado nos ginásios e centros esportivos próprios, ganha uma força extraordinária quando somado a um sistema complementar focado na capilaridade. A proposta central é utilizar a estrutura pública consolidada e ampliar o alcance das modalidades através de parcerias estratégicas que aproximam o esporte da casa do cidadão de forma imediata.

A Lógica da Governança em Rede

O conceito de Governança em Rede surge como uma solução para que o município atue como o centro coordenador de uma estrutura que integra academias, clubes e entidades do terceiro setor já instalados nos bairros. Ao credenciar esses prestadores de serviços, a administração pública passa a utilizar a capacidade instalada da própria cidade para oferecer mais vagas e horários sem a necessidade de obras demoradas. Essa integração técnica permite que o esporte chegue a regiões onde a construção de novos grandes ginásios seria inviável no curto prazo.

Financiamento por Demanda e a Lei Geral do Esporte

A sustentação jurídica para essa modernização encontra respaldo na Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023), que estabelece diretrizes para a democratização do acesso e a transparência na aplicação de recursos. A introdução do financiamento por demanda prevê que o investimento público seja vinculado ao atendimento efetivo do aluno. Diferente do modelo de custeio fixo de prédios, esse sistema assegura que o recurso siga o praticante. Se o serviço é entregue com qualidade e o aluno permanece ativo, o repasse acontece, garantindo o uso racional do orçamento municipal.

Monitoramento e Transparência de Resultados

Para suportar essa expansão, o modelo exige critérios rigorosos de monitoramento e avaliação contínua dos serviços prestados pelos parceiros. A tecnologia de gestão de dados deve ser utilizada para acompanhar a frequência e o impacto social das atividades em cada ponto credenciado. Esse fluxo de informações traz segurança para a prestação de contas e permite ajustes rápidos na oferta de modalidades conforme a procura real da comunidade. A transparência absoluta dos processos assegura que cada centavo investido retorne em benefícios diretos para a saúde e cidadania dos moradores.

Protagonismo e Liberdade de Escolha para o Cidadão

A soma do modelo tradicional com uma rede de parceiros coloca qualquer gestão na vanguarda da administração desportiva nacional. O cidadão ganha o poder de escolha sobre onde e qual modalidade praticar, usufruindo de uma diversidade de horários que o poder público sozinho dificilmente conseguiria ofertar. Ao descentralizar a execução e manter o controle técnico, o município transforma o esporte em uma engrenagem de alta performance social. O foco permanece no resultado prático de garantir que a política pública seja responsiva, eficiente e adaptável às necessidades reais da população.


Airlon Jaques
Profissional Ed. Física, Gestor Público e Escritor.
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segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Paralisia Técnica e o Jogo das Nomeações na FMEL

 


O Histórico de Negligência na Gestão Esportiva

A análise da Fundação Municipal de Esporte e Lazer, nas últimas décadas, revela um padrão de comportamento político que ignora a necessidade de continuidade administrativa. O esporte em Itajaí raramente foi gerido por mãos que compreendem a complexidade técnica do setor, preferindo-se o arranjo de conveniência em detrimento da eficiência. O que assistimos, ao longo dos anos, é a repetição de um ciclo onde promessas de infraestrutura e novos ginásios ocupam o discurso, enquanto os equipamentos públicos existentes permanecem em estado de abandono absoluto. O resultado dessa escolha política é uma estrutura praticamente nula, que não atende às demandas básicas da comunidade esportiva.

O Colapso dos Projetos de Base e o Desamparo do Atleta

A realidade atual da fundação apresenta sintomas graves de uma administração que perdeu o compromisso com o fomento real. O corte de bolsas esportivas e a descontinuação de projetos sociais de base representam um retrocesso que compromete o futuro de centenas de jovens talentos. Não se trata apenas de uma questão orçamentária, mas de uma falha na priorização de quem realmente faz o esporte acontecer. As constantes reclamações sobre a falta de transporte para eventos evidenciam que o suporte básico foi negligenciado, transformando a rotina do atleta itajaiense em uma luta constante contra a própria instituição que deveria apoiá-lo.

A Inércia do Fundo Municipal de Esportes

Um dos pontos mais críticos da gestão atual é a não utilização do Fundo Municipal de Esportes, que foi uma conquista estruturante da gestão anterior. Este mecanismo foi criado justamente para garantir que o recurso chegasse à ponta de forma desburocratizada e eficiente, alimentando as modalidades e garantindo a manutenção das atividades. No entanto, o fundo permanece inutilizado, enquanto os projetos mendigam investimentos e a estrutura física da cidade definha. A ausência de uma execução técnica sobre esses valores demonstra uma incapacidade de operar as ferramentas legais que já estão disponíveis para salvar o esporte local.

O Limbo Institucional do Conselho Municipal

A governança do esporte em Itajaí sofre, hoje, com o esvaziamento do controle social devido à desarticulação do Conselho Municipal de Esportes. O órgão continua sem a devida recomposição e não possui conselheiros com mandato ativo, o que retira da comunidade esportiva o seu principal instrumento de fiscalização e deliberação. Sem um conselho atuante, as decisões da fundação ocorrem sem o crivo de quem entende a realidade das quadras e dos tatames. A reativação desse conselho é uma obrigação legal e moral que está sendo ignorada, deixando a gestão da FMEL operando em um vácuo de transparência e participação popular.

A Qualificação como Chave para o Desenvolvimento

O debate sobre os cargos de confiança na FMEL passa pela exigência de competência técnica de quem ocupa as cadeiras estratégicas. O meu livro destaca que o problema reside na indicação de perfis sem aderência com a área e que desconhecem os marcos regulatórios do esporte. É inadmissível que uma cidade com o potencial econômico de Itajaí aceite um time de gestão que não consegue entregar o básico. Enquanto a lealdade partidária valer mais que a capacidade de gerir o fundo e o conselho, o esporte de Itajaí continuará sendo o maior derrotado nesse jogo invisível da política.


Airlon Jaques
Profissional Ed. Física, Gestor Público e Escritor.
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