domingo, 30 de novembro de 2025

O Desafio Multiuso dos Ginásios Públicos

 



A Crise de Escassez e a Regra do Mais Forte

Ginásios municipais são o termômetro da política esportiva de uma cidade. Em Itajaí ou em qualquer município que invista no esporte, o equipamento multiuso vira o centro de um dilema gerencial. Como alocar tempo de forma justa e eficiente para o alto rendimento que precisa de exclusividade, para a base que forma o futuro e para a comunidade que busca lazer.

A Gestão Compartilhada como Saída

A escassez de espaço premium exige uma governança robusta. O modelo que funciona no Brasil e no exterior é aquele que estabelece uma matriz de priorização clara e contratualizada. Se trata de otimizar a infraestrutura para cumprir múltiplos objetivos sociais e esportivos.
Um bom exemplo brasileiro é a gestão do Legado Olímpico do Rio de Janeiro que embora tenha enfrentado grandes desafios conseguiu segmentar usos.

A Contribuição da Tecnologia e Adaptação

O maior inimigo da equidade na gestão de ginásios é a falta de transparência no agendamento. Onde não há regra clara prevalece a força da influência ou a informalidade.
A tecnologia surge como uma solução de baixo custo e alto impacto. Municípios brasileiros como Jundiaí e Cianorte adotaram sistemas de agendamento online para a cessão de complexos esportivos. O uso de plataformas digitais ou aplicativos permite que o cidadão comum, grupos de lazer ou escolinhas acessem a agenda completa, vejam a disponibilidade e façam suas reservas de forma democrática.

A Solução Passa pela Infraestrutura Inteligente

A gestão de tempo deve ser complementada pela gestão do espaço físico. Um ginásio principal com quadra oficial pode ser complementado por uma área adjacente com quadras menores ou uma sala multiuso para lutas e ginástica. É possível usar divisórias móveis em grandes salões para permitir que a base utilize parte do espaço simultaneamente ao alto rendimento. Mais do que isso a solução definitiva passa pela integração dos equipamentos públicos. O ginásio de ponta deve ter sua carga de base aliviada com a utilização estratégica de quadras de escolas municipais e espaços de lazer dos bairros ampliando o acesso e desafogando a demanda pelo centro.

O Foco no Retorno Social

A infraestrutura pública, como discutido recentemente no caso da Outorga Onerosa, é um investimento significativo que deve gerar o máximo de benefício social. O resultado esportivo importa, mas o uso eficiente desses recursos é uma obrigação de gestão. Priorizar a gestão não é um favor, é uma responsabilidade. O gestor atua como mediador, equilibrando a busca por medalhas com o direito ao esporte de participação. Transformar um ginásio multiuso de problema em solução exige clareza política, gestão baseada em dados e a capacidade de alinhar a estrutura física às necessidades da comunidade.


Airlon Jaques
Educador Físico Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques

domingo, 23 de novembro de 2025

A Ditadura da Selfie nas Academias

 


O Show do Treino

A cena se repete em toda parte. Alguém interrompe o exercício para fazer a foto perfeita, a selfie que vai direto para o feed. A academia, que antes era um espaço de foco e superação, se transformou em palco de conteúdo. Surge uma questão importante. Estamos ali para construir resultados reais no corpo e na mente ou apenas para gerar likes e stories?
A busca por aprovação digital consome energia mental. Pesquisas sobre multitarefa mostram que alternar constantemente entre o celular e o treino reduz a concentração e prejudica o desempenho físico.

O Fim Justifica o Feed?

Não se trata de condenar as redes sociais. Elas motivam, aproximam pessoas e são ferramenta de trabalho para muitos. O problema aparece quando o meio se torna o fim, quando a medida de sucesso do treino passa a ser o número de visualizações e não a evolução pessoal.
A inversão de valores é discreta. O treino de alta intensidade perde espaço para a pose de alta visibilidade. O valor deixa de estar no que se faz com o corpo e passa a estar no que se publica sobre ele.

O Custo da Desconexão

Viver conectado o tempo todo tem um preço alto. O foco na própria jornada se perde e a energia mental se esgota entre rolagens de tela e edições de imagens. Esse hábito compromete não apenas o desempenho, mas também o prazer de praticar atividade física.
Aquele estado de fluxo que o esporte proporciona, em que há plena conexão com o corpo, desaparece na ansiedade de registrar cada momento. Atletas amadores e profissionais sentem o impacto na concentração e no bem-estar mental.

Resgatando o Foco no Treino

A solução não está em se isolar, mas em recuperar o propósito. A academia serve para treinar e o celular serve para registrar.
Em Portland, nos Estados Unidos, alguns centros esportivos adotaram o chamado treino consciente, também conhecido como mindful training. Há espaços específicos para fotos e períodos destinados à desconexão, o que ajuda a manter a concentração.
Para quem treina, o desafio é simples. Estabelecer momentos definidos para usar o celular e transformá-lo em uma ferramenta de apoio, nunca na razão principal do treino.

Autenticidade e Performance

As redes sociais têm grande poder quando utilizadas com intenção. Compartilhar progresso ou inspirar outras pessoas é algo positivo. O segredo está em fazer com que o conteúdo seja um reflexo verdadeiro do treino e não o motivo para realizá-lo.
A disciplina ultrapassa o aspecto físico e alcança o mental e o digital. Manter a atenção na respiração, na execução dos movimentos e na percepção do corpo ajuda a restabelecer a essência do exercício.
Quando o treino volta a ser uma experiência pessoal e não uma exibição pública, a performance e a concentração se fortalecem. A selfie pode ser uma celebração justa de um esforço real, mas o esforço sempre deve vir antes da foto.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques

domingo, 16 de novembro de 2025

Anabolizantes, TRT e o risco.

 


Quando o desejo ultrapassa o limite
Em academias, grupos de WhatsApp e redes sociais, é cada vez mais comum ver pessoas que nem competem recorrerem a anabolizantes, hormônios ou terapias hormonais para acelerar ganhos musculares ou melhorar a aparência. Muitos fazem isso sem acompanhamento médico e acabam comprando fórmulas clandestinas. O risco é alto, tanto para quem busca rendimento esportivo quanto para quem treina por estética ou saúde.

Entre uso terapêutico e risco no esporte
Para atletas que participam de competições oficiais, a regra é clara: testosterona e esteroides anabolizantes só podem ser usados com autorização médica específica, a chamada TUE (Autorização de Uso Terapêutico). Mesmo a TRT para homens acima dos 40 anos, se feita sem esse documento, é considerada doping. Já para o praticante comum, o perigo está nos efeitos colaterais graves e na falta de controle de origem das substâncias.

Casos que acenderam o alerta
O maratonista Daniel do Nascimento foi suspenso por cinco anos após testar positivo para anabolizantes. Thiago Braz, campeão olímpico no salto com vara, recebeu 16 meses de suspensão por ostarina, substância muitas vezes presente em suplementos contaminados. No mundo das academias, a polícia tem desmantelado esquemas de venda ilegal de hormônios e “fórmulas” manipuladas sem registro, mostrando que o problema é mais amplo do que o esporte profissional.

O problema da automedicação
Quem não tem acesso fácil a endocrinologistas acaba recorrendo à internet e a fórmulas vendidas de forma irregular. Isso aumenta o risco de reações adversas e até de consumir substâncias diferentes das que constam no rótulo. A maioria dos casos de complicações sérias vem do uso sem prescrição ou sem exames, o que reforça a necessidade de orientação responsável.

TRT para os mais de 40: direito ou risco?
A terapia de reposição de testosterona é indicada apenas para quem tem diagnóstico clínico de hipogonadismo comprovado. Fora disso, vira uso estético, e o corpo paga o preço. Mesmo quem busca apenas vitalidade e disposição deve passar por avaliação médica, com exames regulares e acompanhamento. No caso de atletas profissionais, qualquer uso sem TUE pode resultar em punição e manchar a carreira.

Como se proteger, competindo ou não
Antes de pensar em usar qualquer substância, o ideal é fazer exames hormonais, evitar produtos sem procedência e desconfiar de promessas de resultado rápido. Uma boa alimentação, sono de qualidade e treino periodizado continuam sendo as ferramentas mais eficazes e seguras. O suplemento certo, usado de forma consciente e dentro da necessidade individual, vale mais do que qualquer protocolo copiado de rede social.

O caminho equilibrado
O verdadeiro progresso vem de constância, não de atalhos. Quem compete precisa respeitar as regras para não perder anos de trabalho por uma punição. Quem treina por saúde precisa proteger o próprio corpo, não agredi-lo em nome da pressa. Cuidar da saúde, estudar o que se consome e desconfiar de fórmulas milagrosas é o que realmente diferencia quem busca resultado de quem procura apenas aparência.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques


domingo, 9 de novembro de 2025

Lesões no esporte: como evitar e tratar



Causas que quase todo atleta ignora

Lesões esportivas não surgem apenas por falta de aquecimento ou excesso de treino. Fatores como desequilíbrio muscular, técnica incorreta, superfícies instáveis ou repetição exagerada de movimentos são igualmente importantes. Além disso, sono ruim, alimentação inadequada e recuperação insuficiente enfraquecem os tecidos e aumentam o risco de entorses, rupturas e sobrecargas.

Prevenção que faz diferença

Evitar lesões é transformar o cuidado em rotina. Fortalecer músculos estabilizadores, manter boa mobilidade e corrigir a postura reduzem consideravelmente o risco. Planejar os treinos com equilíbrio entre carga e descanso e respeitar os sinais de fadiga mantém o corpo preparado. Também é essencial treinar em piso adequado, usar calçado correto e considerar as condições do ambiente, que são parte da segurança, não um luxo.

Tratamento moderno para voltar melhor

Quando a lesão ocorre, o básico ainda funciona: diagnóstico, fisioterapia e retorno gradual. Mas alguns atletas complementam com suplementação articular. A Glucosamina auxilia na formação da cartilagem, enquanto a Condroitina ajuda a reduzir sua degradação. Já o UC-II, colágeno tipo II não desnaturado, estudado desde 2013, mostra bons resultados em articulações como o joelho, ajudando na resposta imune e na integridade da cartilagem. Mesmo assim, nenhum suplemento substitui tratamento médico ou acompanhamento profissional, é apenas um reforço.

Orientações para quem treina e compete

Cada corpo reage de forma diferente. Um amador sem rotina de alongamento e descanso pode se lesionar com facilidade, enquanto um atleta bem orientado suporta maiores cargas. Antes de usar qualquer suplemento, consulte um nutricionista ou médico esportivo. O uso deve estar dentro de um plano completo que envolva boa alimentação, hidratação, sono, recuperação ativa e progressão controlada. Essa combinação sustenta o uso consciente de Glucosamina, Condroitina e UC-II.

Compromisso para além da dor

Voltar a treinar não é o suficiente. O corpo pode se recuperar, mas a mente também precisa se ajustar. Prevenir, tratar e usar suplementos de forma inteligente faz parte de um mesmo compromisso. O atleta que entende isso treina com respeito ao próprio corpo e transforma cuidado em estratégia.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques

domingo, 2 de novembro de 2025

Envelhecer conectado: tradição, movimento e tecnologia



Movimento que acalma e fortalece
Envelhecer não significa cessar o movimento. Atividades simples como caminhadas, ginástica leve em praças públicas ou uso de espaços comunitários já são fundamentais para manter articulações móveis, manter o coração ativo e preservar autonomia. Em Itajaí, o programa Itajaí Ativo mostra que a rotina de movimento faz mais diferença que a intensidade alta. Cultivar o hábito é o primeiro passo para envelhecer com qualidade.

Tai Chi Chuan e Qi Gong
De forma tradicional, o Tai Chi provê melhora significativa no equilíbrio, na mobilidade e na prevenção de quedas em adultos mais velhos. Estudos recentes mostram que sessões de duas a três vezes por semana de Tai Chi melhoram testes de equilíbrio. Similarmente, o Qi Gong oferece movimento consciente, respiração e coordenação, e aparece como excelente alternativa para quem tem restrição de mobilidade ou articulações. Essas modalidades incorporam corpo e mente, o que torna o exercício sustentável e prazeroso para quem quer continuar ativo por décadas.

Tecnologia a favor da vitalidade
Agora o salto está na tecnologia aplicada à terceira idade. Dispositivos vestíveis, sensores residenciais, monitoramento remoto e sistemas conectados permitem avaliar condições de saúde antes, durante e após os exercícios. Em pilotos de programas brasileiros, relógios inteligentes e pulseiras já monitoram batimentos, passos, sono e detectam quedas, com dados enviados à nuvem para acompanhamento por equipes técnicas. Isso transforma o exercício em ferramenta preventiva e o esporte em política pública inteligente. 

Exemplos que já funcionam
Na Paraíba há um caso concreto com idosos do programa Cidade Madura em parceria com a UEPB, onde relógios inteligentes monitoram batimentos, passos e sono com envio de dados para acompanhamento remoto, o que permite ajustar atividade e agir rápido diante de sinais de risco. No exterior, Singapura espalhou quiosques de saúde em centros comunitários para que idosos façam aferições por conta própria com integração automática aos serviços públicos, prática que transforma dado em prevenção diária. Esses exemplos mostram que unir monitoramento simples a rotinas já existentes muda a escala do cuidado, dá ao gestor público informação confiável e protege quem mais precisa enquanto treina.

Itajaí, o presente e a rota futura
Itajaí que já estimula o movimento para idosos por meio do programa Itajaí Ativo, pode avançar ainda mais com o uso inteligente da tecnologia. O passo seguinte é unir o que já funciona com soluções acessíveis. Relógios e pulseiras inteligentes permitem acompanhar batimentos, passos e até quedas em tempo real, com dados enviados automaticamente para técnicos e profissionais de saúde. Totens simples de aferição instalados nos polos também registram pressão arterial, peso e frequência cardíaca, gerando relatórios que ajudam a ajustar os treinos de forma individualizada. Essa combinação de cuidado humano e monitoramento digital cria uma rede de proteção e eficiência. O resultado é um programa que vai além da prática esportiva, pois transforma cada aula em ação de prevenção, acompanhamento e qualidade de vida.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques