domingo, 24 de maio de 2026

A pista de atletismo e o povo

 


Quando um equipamento público se integra à vida das pessoas

O debate sobre o uso da pista de atletismo de Itajaí vai além de regras de horário ou critérios de utilização. O que está em discussão é o significado que um equipamento público adquire quando se torna parte da rotina diária da população. Quem frequenta o local conhece bem essa dinâmica. Pessoas caminham antes do trabalho, grupos realizam corrida orientada, profissionais acompanham alunos, atletas treinam em horários específicos e famílias utilizam a área para atividade física e socialização. Essa presença constante ao longo do dia revela que o equipamento está profundamente integrado à vida da cidade há décadas.

Quando um espaço público ganha valor social
Equipamentos esportivos públicos existem para gerar acesso amplo à prática esportiva. Quando um espaço é intensamente ocupado, ele demonstra alta aderência social, cria hábitos saudáveis e fortalece o vínculo entre a cidade e sua população. Quadras vazias, pistas abandonadas e ginásios sem circulação representam, na prática, desperdício de investimento público.
A Constituição Federal, em seu artigo 217, determina que o poder público deve fomentar as práticas esportivas formais e não formais. Essa previsão abrange tanto o atleta de rendimento quanto o cidadão comum que caminha ao final do dia em busca de saúde e qualidade de vida. A pista de atletismo de Itajaí cumpre esse papel há muito tempo.

O desafio de organizar sem afastar
Toda estrutura pública muito utilizada gera tensões naturais de convivência. Atletas de alto rendimento precisam de ambiente adequado para desempenho técnico, enquanto praticantes de atividade física por saúde necessitam de acesso contínuo e previsível. Horários concorridos, ritmos diferentes de treino e o aumento da demanda exigem organização.
Equipes esportivas, corredores recreativos, idosos, caminhantes e profissionais da saúde consolidaram presença no local ao longo de décadas. A própria tensão entre esses grupos demonstra que o espaço foi bem-sucedido e superou sua capacidade original. Construir regras de uso pode ser necessário, desde que preserve a essência pública do equipamento e respeite o comportamento que a cidade construiu ao longo do tempo.

A oportunidade que surge no entorno
O projeto de uma vila olímpica na região abre caminho para uma solução mais equilibrada. Estruturas específicas para equipes e treinamento técnico poderiam absorver a demanda do esporte de rendimento com maior qualidade e previsibilidade, sem comprometer o uso atual da pista. Outra alternativa é a criação de um parque esportivo ou área equivalente nas proximidades. Experiências mostram que mudanças em equipamentos consolidados geram menos resistência quando acompanhadas de novas opções acessíveis.

Uma decisão que vai além do esporte
O momento atual representa uma oportunidade de reconhecer o que a pista de atletismo já significa para Itajaí. Ela cumpre funções esportivas, sociais e de saúde pública ao mesmo tempo. Reorganizá-la sem considerar esse acúmulo de valor construído pela população ao longo de décadas é ignorar o que a própria cidade espontaneamente escolheu ocupar e manter vivo. Planejamento inteligente começa pelo reconhecimento daquilo que a população já ocupa e valoriza.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram @airlonjaques



domingo, 17 de maio de 2026

Wushu Sanda: da China ao Brasil

 


A raiz tradicional

O Wushu é a denominação chinesa para o conjunto das artes marciais desenvolvidas na China ao longo de milênios. O que o ocidente conhece como Kung Fu é, na origem, Wushu, um sistema que reunia técnicas de combate, uso de armas, formas coreografadas e filosofia marcial em um único corpo de conhecimento transmitido de mestre para aluno. Cada estilo carregava a identidade de sua linhagem, sua região e seus princípios técnicos. Esse Wushu tradicional era um sistema completo de formação humana pelo combate.

A modernização e o nascimento do Sanshou

Com a fundação da República Popular da China em 1949, o governo iniciou um processo de padronização das artes marciais para transformá-las em esporte nacional. Nasceu assim o Wushu Moderno, dividido em duas disciplinas: o Taolu, composto pelas rotinas coreografadas avaliadas por juízes, e o Sanshou, a vertente de combate real entre dois atletas. Em 1979, o Comitê Chinês de Esportes Nacionais vinculou oficialmente o Sanshou ao Wushu competitivo. Em 1982 foram elaboradas as primeiras regras formais para disputas. Com a fundação da Federação Internacional de Wushu em 1990 e o primeiro Campeonato Mundial em 1991, a modalidade ganhou projeção global e o nome Sanda passou a ser adotado progressivamente no lugar de Sanshou, embora os dois termos ainda circulem como sinônimos.

O Kung Fu chega ao Brasil

O Kung Fu desembarcou no Brasil no final da década de 1950 com mestres chineses que emigraram após as transformações políticas na China. Os pioneiros foram os Grão-Mestres Chan Kowk Wai e Chiu Ping Lok, que iniciaram o trabalho com a comunidade chinesa em São Paulo e gradualmente abriram as aulas ao público brasileiro. O ensino seguia o modelo integral do Kung Fu, onde formas técnicas, filosofia e combate compunham um único currículo. A parte de luta, conhecida na época como Sanshou, era praticada ao final das aulas regulares. Até o final dos anos 1990, não havia no Brasil academias que ensinassem o Sanshou como disciplina autônoma.

O Boxe Chinês como modalidade independente

No início dos anos 2000, os professores Cláudio Limirio e Airlon Jaques, de Itajaí, Santa Catarina, passaram a oferecer aulas exclusivas de combate. Utilizaram pela primeira vez o nome Boxe Chinês como identificação de uma modalidade autônoma, onde o aluno treinava apenas as técnicas de luta. Pouco tempo depois, o Mestre Benê, de Taubaté, adotou o mesmo caminho, colocando Boxe Chinês na fachada de sua academia e oferecendo aulas exclusivas da modalidade. Essa movimentação criou um novo perfil de praticante, alguém focado no combate do Sanshou como fim em si mesmo.

A padronização nacional

A Confederação Brasileira de Kung Fu Wushu, fundada em 9 de maio de 1992 e reconhecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro, é a entidade responsável pela organização do Wushu no Brasil. Com o crescimento do Sanshou como disciplina independente, a CBKW avançou na estruturação de um sistema formal para a modalidade. Seu diretor técnico de Sanshou na época, João Guedes, convocou os professores Cláudio Limirio e Airlon Jaques para formatar o sistema de graduação, definindo as técnicas por nível e os critérios de progressão. Em seguida foram realizados workshops por todo o Brasil para adequar os professores dentro da nova estrutura, alinhada ao modelo que a China desenvolvia e orientava para os países filiados. A modalidade que havia nascido como parte final de uma aula ganhava currículo, metodologia e identidade institucional.

A luta no Lei Tai

As competições de Sanda são disputadas sobre o Lei Tai, uma plataforma elevada sem cordas que delimita o espaço de combate e amplifica o peso de cada decisão. O atleta que cai para fora da plataforma perde pontos, tornando o controle de distância e o equilíbrio variáveis táticas permanentes. A luta integra socos, chutes e projeções em dinâmica contínua, com transições entre distâncias e intenção constante de desequilíbrio do adversário. Rounds curtos e contato pleno exigem condicionamento físico elevado e capacidade de decisão em tempo real.


Airlon Jaques
Profissional Ed. Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 10 de maio de 2026

Itajaí está sem ginásios


 

Promessas nas redes, silêncio nas obras

O prefeito Robson Coelho tem sido generoso em suas redes sociais. Vídeos bem produzidos anunciam uma vila olímpica atrás da Câmara de Vereadores, um ginásio referência no lugar do Ivo Silveira demolido e dois ginásios nos bairros com recursos de projeto estadual. O problema é que esses anúncios se repetem há um ano e meio sem que uma única licitação de obra tenha sido concluída. Os dois ginásios prometidos via projeto estadual, vale dizer, são estruturas mais próximas de quadras cobertas do que de ginásios com infraestrutura completa. Tudo muito bonito na tela do celular. No chão de Itajaí, nada mudou.

Uma herança ruim que não serve de desculpa

Itajaí nunca tratou seus ginásios com seriedade. Gestão após gestão, investimentos em construção e reformas foram deixados de lado, e o resultado acumulado é uma infraestrutura esportiva cronicamente precária. Quem assume o município herda esse histórico, mas herdar um problema não autoriza ignorá-lo. Quem decide governar aceita o ônus junto com o bônus. A nova gestão sabia o que encontraria e tinha tempo suficiente para agir. Um ano e meio depois, a inércia fala mais alto do que qualquer herança recebida.

A escolha que atrasa tudo

A gestão adotou a prática de licitar primeiro o projeto executivo e, somente após sua conclusão, abrir nova licitação para a obra em si. Essa sequência em etapas separadas consome tempo que a cidade não tem. A Lei 14.133/2021, nova lei de licitações, prevê o regime de contratação integrada, que permite licitar projeto e obra em um único processo, com a empresa contratada responsável por desenvolver o projeto básico, o executivo e executar a construção. Municípios que mantêm engenheiros próprios no quadro podem ainda elaborar o projeto internamente e licitar somente a obra. Bons tempos em que as prefeituras tinham esse corpo técnico. A opção pelo fatiamento do processo é uma decisão administrativa com consequências reais para quem depende do esporte público em Itajaí.

Três ginásios, nenhum disponível

O ginásio Julcídio Fernandes, no bairro Cordeiros, está interditado. O Ivo Silveira, no bairro Fazenda, foi demolido. O Gabriel Colares, no Centro, o principal equipamento esportivo da cidade, será tomado pela Justiça Eleitoral para instalação das urnas e só retornará ao município após o segundo turno, em novembro. Três estruturas fora de operação ao mesmo tempo, sem nenhuma alternativa organizada pelo poder público para absorver o impacto.

O que precisa acontecer agora

A resposta imediata está em dois caminhos que podem ser percorridos em paralelo. O primeiro é a contratação de estruturas esportivas particulares para uso temporário. O segundo é o ajuste com as secretarias de educação municipal e estadual para liberar as quadras dos colégios públicos como suporte. Esse segundo caminho exige atenção, pois quadras de colégios públicos demandam contrapartida de reformas para liberação e já funcionam com agendas próprias de uso. Quadras cobertas de colégios particulares raramente se abrem para o poder público, já que receber a prefeitura em suas instalações conflita com o próprio modelo de negócio dessas instituições. O tempo útil para essas negociações está se esgotando. Estruturas privadas fecham suas programações com antecedência e chegará o momento em que não haverá agenda disponível para absorver a demanda do esporte municipal.

A solução que a gestão precisa encarar

A contratação emergencial de empresas especializadas em estruturas pré-moldadas é o caminho mais rápido e viável. Essas empresas entregam galpões em tempo recorde, prontos para serem equipados e adaptados ao uso esportivo. É uma solução legal, eficiente e amplamente utilizada por gestões que compreendem que o esporte público não pode entrar em colapso enquanto a burocracia segue seu ritmo. Se a FMEL ainda não moveu nenhuma peça nessa direção (e há razões concretas para acreditar que não moveu), escolinhas, treinamentos e competições de Itajaí caminham para um colapso que já estava sendo anunciado há tempo suficiente para ser evitado.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
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domingo, 3 de maio de 2026

Marcílio Dias e a outorga onerosa



A Discussão no Marcílio Dias

A diretoria do Clube Náutico Marcílio Dias discute a possibilidade de utilizar o potencial construtivo do terreno do Estádio Doutor Hercílio Luz para viabilizar a modernização da casa do Marinheiro. A abordagem segue o instrumento urbanístico aplicado pelo Club de Regatas Vasco da Gama no Rio de Janeiro.

O Instrumento Urbanístico

A transferência do direito de construir está prevista no Estatuto da Cidade. A Lei Federal nº 10.257, de 2001, regula o mecanismo. No caso de imóveis com restrições de zoneamento ou de interesse público, a operação urbana consorciada permite a venda do potencial não utilizado para outras áreas da cidade. Os recursos gerados pela transferência são aplicados na intervenção pretendida. O Plano Diretor municipal define as regras locais para a outorga onerosa e a transferência de potencial.

O Exemplo do Vasco da Gama

No Rio de Janeiro, a Lei Complementar nº 272, de 2024, instituiu a Operação Urbana Consorciada do Estádio de São Januário. O Vasco da Gama, como proprietário do imóvel, transferiu cerca de 280 mil metros quadrados de potencial construtivo. A estimativa de recursos alcança aproximadamente 500 milhões de reais. Esses valores são destinados integralmente à reforma do complexo, incluindo o estádio, o parque aquático e o entorno. O processo envolve a comercialização do potencial para incorporadoras em áreas receptoras definidas pela lei.

A Proposta para Itajaí

Em Itajaí, o terreno do Gigantão das Avenidas pertence à Prefeitura Municipal e o clube opera sob concessão de uso. A área tem aproximadamente 27 mil metros quadrados e avaliação de mercado em torno de 600 milhões de reais. A Prefeitura contratou estudo técnico por meio da Itajaí Participações, com prazo de três meses e custo estimado de até 500 mil reais. Conforme afirmou o presidente Tarcísio Guedim ao podcast Polilogica, com Jean Sestrem, a diretoria pretende encaminhar um projeto de lei à Câmara de Vereadores por meio do Poder Executivo Municipal. O objetivo é viabilizar a modernização do estádio, com capacidade para até 20 mil torcedores, por meio da transferência de potencial construtivo. O governador Jorginho Mello autorizou, em 2025, a celebração de parcerias público-privadas para a ampliação e modernização do equipamento.

Os Valores e o Comparativo Técnico

A expectativa divulgada é de arrecadação em torno de 100 milhões de reais com o potencial construtivo. Esse montante representa quase um terço do financiamento de US$ 62,5 milhões obtido pelo município junto ao Fonplata, em 2018, para o programa Itajaí 2040 Moderna e Sustentável. O programa abrange infraestrutura urbana, mobilidade, drenagem e espaços de recreação. O estudo em andamento definirá as áreas receptoras e as contrapartidas exatas.

Questão de Prioridade

Cem milhões de reais são uma quantia expressiva, especialmente quando se trata de recursos públicos que poderiam ser direcionados a outras demandas da cidade. Transferir esse montante, por meio de um instrumento urbanístico, para financiar a modernização de um estádio gerido por um clube privado levanta questionamentos sobre a prioridade e a destinação final dos valores. Cabe ao leitor avaliar se direcionar recursos equivalentes a quase um terço do montante obtido via Fonplata para o projeto do novo estádio representa a melhor alocação para o município.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor.
Instagram @airlonjaques