segunda-feira, 1 de junho de 2026

A Copa do Mundo ainda é do povo?

 


O futebol que era de todos

A Copa do Mundo sempre carregou uma imagem poderosa. Rua decorada, televisão ligada cedo, família reunida e gente comum vivendo o maior evento esportivo do planeta como algo próximo da própria vida. Durante décadas, o sentimento parecia simples de entender. A Copa pertencia ao povo.

Uma Copa espalhada pelo continente

A edição de 2026 abre uma pergunta desconfortável. Essa relação continua a mesma ou mudou junto com o tamanho do espetáculo? Pela primeira vez, o torneio será disputado em três países ao mesmo tempo, Estados Unidos, México e Canadá, reunindo 48 seleções e um número recorde de partidas. A grandiosidade impressiona, embora revele um detalhe importante. A distância entre o evento e o torcedor comum parece crescer na mesma proporção.

A Copa dos estreantes

A ampliação do torneio abriu espaço para seleções que jamais haviam alcançado uma Copa do Mundo. Uzbequistão e Jordânia já garantiram presença inédita, enquanto países como Curaçao e Haiti ainda alimentam chances reais de classificação. O futebol se espalha por novos territórios, cria histórias inéditas e amplia sua diversidade competitiva.

Uma viagem para poucos

O torcedor que sonha acompanhar sua seleção de perto encontrará uma realidade difícil de ignorar. Dependendo da trajetória, a viagem pode exigir voos internos longos, hospedagens em cidades diferentes e principalmente travessias de fronteira dentro do próprio torneio. Um jogo no México pode ser seguido por outro nos Estados Unidos e, poucos dias depois, uma partida no Canadá. A Copa sempre teve custos elevados, embora agora a escala financeira pareça alcançar outro patamar.

O visto já virou parte do ingresso

Grande parte das partidas acontecerá nos Estados Unidos, país que continua exigindo visto para brasileiros. O processo envolve solicitação antecipada, pagamento de taxas, entrevista consular e planejamento com bastante antecedência, especialmente em períodos de alta procura. Um alemão, um espanhol ou um japonês conseguem entrar com autorização eletrônica simplificada. O brasileiro inicia sua jornada enfrentando uma etapa burocrática que pesa no bolso e no planejamento da viagem.

Quando o futebol encontra a lógica do mercado

A expansão para 48 seleções traz ganhos esportivos e também econômicos. Mais países representam mais jogos, maior audiência, novos contratos de transmissão, publicidade ampliada e expansão do consumo global do futebol. O torneio cresce dentro de uma lógica de mercado que acompanha a transformação do esporte em produto internacional de enorme escala.

O estádio parece cada vez mais distante

O futebol continua mobilizando multidões. O sentimento coletivo segue vivo, as ruas continuam cheias e a paixão permanece intacta. A experiência presencial, porém, parece caminhar para uma realidade cada vez mais restrita. Ingressos caros, deslocamentos longos e exigências burocráticas transformam a ida à Copa em algo distante da rotina financeira de grande parte da população.

A Copa ainda é do povo?

Talvez a resposta continue sendo sim no campo da emoção. O futebol ainda reúne famílias, movimenta cidades e produz uma sensação coletiva rara de pertencimento. O debate ganha força quando o maior evento esportivo do planeta se torna financeiramente inalcançável para quem ajudou a construir sua identidade popular. O povo continua torcendo, cantando e parando a rotina por noventa minutos. A dúvida que fica é outra: o povo ainda participa da festa ou aprendeu a assistir de longe um espetáculo que um dia pareceu seu?


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 24 de maio de 2026

A pista de atletismo e o povo

 


Quando um equipamento público se integra à vida das pessoas

O debate sobre o uso da pista de atletismo de Itajaí vai além de regras de horário ou critérios de utilização. O que está em discussão é o significado que um equipamento público adquire quando se torna parte da rotina diária da população. Quem frequenta o local conhece bem essa dinâmica. Pessoas caminham antes do trabalho, grupos realizam corrida orientada, profissionais acompanham alunos, atletas treinam em horários específicos e famílias utilizam a área para atividade física e socialização. Essa presença constante ao longo do dia revela que o equipamento está profundamente integrado à vida da cidade há décadas.

Quando um espaço público ganha valor social
Equipamentos esportivos públicos existem para gerar acesso amplo à prática esportiva. Quando um espaço é intensamente ocupado, ele demonstra alta aderência social, cria hábitos saudáveis e fortalece o vínculo entre a cidade e sua população. Quadras vazias, pistas abandonadas e ginásios sem circulação representam, na prática, desperdício de investimento público.
A Constituição Federal, em seu artigo 217, determina que o poder público deve fomentar as práticas esportivas formais e não formais. Essa previsão abrange tanto o atleta de rendimento quanto o cidadão comum que caminha ao final do dia em busca de saúde e qualidade de vida. A pista de atletismo de Itajaí cumpre esse papel há muito tempo.

O desafio de organizar sem afastar
Toda estrutura pública muito utilizada gera tensões naturais de convivência. Atletas de alto rendimento precisam de ambiente adequado para desempenho técnico, enquanto praticantes de atividade física por saúde necessitam de acesso contínuo e previsível. Horários concorridos, ritmos diferentes de treino e o aumento da demanda exigem organização.
Equipes esportivas, corredores recreativos, idosos, caminhantes e profissionais da saúde consolidaram presença no local ao longo de décadas. A própria tensão entre esses grupos demonstra que o espaço foi bem-sucedido e superou sua capacidade original. Construir regras de uso pode ser necessário, desde que preserve a essência pública do equipamento e respeite o comportamento que a cidade construiu ao longo do tempo.

A oportunidade que surge no entorno
O projeto de uma vila olímpica na região abre caminho para uma solução mais equilibrada. Estruturas específicas para equipes e treinamento técnico poderiam absorver a demanda do esporte de rendimento com maior qualidade e previsibilidade, sem comprometer o uso atual da pista. Outra alternativa é a criação de um parque esportivo ou área equivalente nas proximidades. Experiências mostram que mudanças em equipamentos consolidados geram menos resistência quando acompanhadas de novas opções acessíveis.

Uma decisão que vai além do esporte
O momento atual representa uma oportunidade de reconhecer o que a pista de atletismo já significa para Itajaí. Ela cumpre funções esportivas, sociais e de saúde pública ao mesmo tempo. Reorganizá-la sem considerar esse acúmulo de valor construído pela população ao longo de décadas é ignorar o que a própria cidade espontaneamente escolheu ocupar e manter vivo. Planejamento inteligente começa pelo reconhecimento daquilo que a população já ocupa e valoriza.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram @airlonjaques



domingo, 17 de maio de 2026

Wushu Sanda: da China ao Brasil

 


A raiz tradicional

O Wushu é a denominação chinesa para o conjunto das artes marciais desenvolvidas na China ao longo de milênios. O que o ocidente conhece como Kung Fu é, na origem, Wushu, um sistema que reunia técnicas de combate, uso de armas, formas coreografadas e filosofia marcial em um único corpo de conhecimento transmitido de mestre para aluno. Cada estilo carregava a identidade de sua linhagem, sua região e seus princípios técnicos. Esse Wushu tradicional era um sistema completo de formação humana pelo combate.

A modernização e o nascimento do Sanshou

Com a fundação da República Popular da China em 1949, o governo iniciou um processo de padronização das artes marciais para transformá-las em esporte nacional. Nasceu assim o Wushu Moderno, dividido em duas disciplinas: o Taolu, composto pelas rotinas coreografadas avaliadas por juízes, e o Sanshou, a vertente de combate real entre dois atletas. Em 1979, o Comitê Chinês de Esportes Nacionais vinculou oficialmente o Sanshou ao Wushu competitivo. Em 1982 foram elaboradas as primeiras regras formais para disputas. Com a fundação da Federação Internacional de Wushu em 1990 e o primeiro Campeonato Mundial em 1991, a modalidade ganhou projeção global e o nome Sanda passou a ser adotado progressivamente no lugar de Sanshou, embora os dois termos ainda circulem como sinônimos.

O Kung Fu chega ao Brasil

O Kung Fu desembarcou no Brasil no final da década de 1950 com mestres chineses que emigraram após as transformações políticas na China. Os pioneiros foram os Grão-Mestres Chan Kowk Wai e Chiu Ping Lok, que iniciaram o trabalho com a comunidade chinesa em São Paulo e gradualmente abriram as aulas ao público brasileiro. O ensino seguia o modelo integral do Kung Fu, onde formas técnicas, filosofia e combate compunham um único currículo. A parte de luta, conhecida na época como Sanshou, era praticada ao final das aulas regulares. Até o final dos anos 1990, não havia no Brasil academias que ensinassem o Sanshou como disciplina autônoma.

O Boxe Chinês como modalidade independente

No início dos anos 2000, os professores Cláudio Limirio e Airlon Jaques, de Itajaí, Santa Catarina, passaram a oferecer aulas exclusivas de combate. Utilizaram pela primeira vez o nome Boxe Chinês como identificação de uma modalidade autônoma, onde o aluno treinava apenas as técnicas de luta. Pouco tempo depois, o Mestre Benê, de Taubaté, adotou o mesmo caminho, colocando Boxe Chinês na fachada de sua academia e oferecendo aulas exclusivas da modalidade. Essa movimentação criou um novo perfil de praticante, alguém focado no combate do Sanshou como fim em si mesmo.

A padronização nacional

A Confederação Brasileira de Kung Fu Wushu, fundada em 9 de maio de 1992 e reconhecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro, é a entidade responsável pela organização do Wushu no Brasil. Com o crescimento do Sanshou como disciplina independente, a CBKW avançou na estruturação de um sistema formal para a modalidade. Seu diretor técnico de Sanshou na época, João Guedes, convocou os professores Cláudio Limirio e Airlon Jaques para formatar o sistema de graduação, definindo as técnicas por nível e os critérios de progressão. Em seguida foram realizados workshops por todo o Brasil para adequar os professores dentro da nova estrutura, alinhada ao modelo que a China desenvolvia e orientava para os países filiados. A modalidade que havia nascido como parte final de uma aula ganhava currículo, metodologia e identidade institucional.

A luta no Lei Tai

As competições de Sanda são disputadas sobre o Lei Tai, uma plataforma elevada sem cordas que delimita o espaço de combate e amplifica o peso de cada decisão. O atleta que cai para fora da plataforma perde pontos, tornando o controle de distância e o equilíbrio variáveis táticas permanentes. A luta integra socos, chutes e projeções em dinâmica contínua, com transições entre distâncias e intenção constante de desequilíbrio do adversário. Rounds curtos e contato pleno exigem condicionamento físico elevado e capacidade de decisão em tempo real.


Airlon Jaques
Profissional Ed. Física, Gestor Público e Escritor
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domingo, 10 de maio de 2026

Itajaí está sem ginásios


 

Promessas nas redes, silêncio nas obras

O prefeito Robson Coelho tem sido generoso em suas redes sociais. Vídeos bem produzidos anunciam uma vila olímpica atrás da Câmara de Vereadores, um ginásio referência no lugar do Ivo Silveira demolido e dois ginásios nos bairros com recursos de projeto estadual. O problema é que esses anúncios se repetem há um ano e meio sem que uma única licitação de obra tenha sido concluída. Os dois ginásios prometidos via projeto estadual, vale dizer, são estruturas mais próximas de quadras cobertas do que de ginásios com infraestrutura completa. Tudo muito bonito na tela do celular. No chão de Itajaí, nada mudou.

Uma herança ruim que não serve de desculpa

Itajaí nunca tratou seus ginásios com seriedade. Gestão após gestão, investimentos em construção e reformas foram deixados de lado, e o resultado acumulado é uma infraestrutura esportiva cronicamente precária. Quem assume o município herda esse histórico, mas herdar um problema não autoriza ignorá-lo. Quem decide governar aceita o ônus junto com o bônus. A nova gestão sabia o que encontraria e tinha tempo suficiente para agir. Um ano e meio depois, a inércia fala mais alto do que qualquer herança recebida.

A escolha que atrasa tudo

A gestão adotou a prática de licitar primeiro o projeto executivo e, somente após sua conclusão, abrir nova licitação para a obra em si. Essa sequência em etapas separadas consome tempo que a cidade não tem. A Lei 14.133/2021, nova lei de licitações, prevê o regime de contratação integrada, que permite licitar projeto e obra em um único processo, com a empresa contratada responsável por desenvolver o projeto básico, o executivo e executar a construção. Municípios que mantêm engenheiros próprios no quadro podem ainda elaborar o projeto internamente e licitar somente a obra. Bons tempos em que as prefeituras tinham esse corpo técnico. A opção pelo fatiamento do processo é uma decisão administrativa com consequências reais para quem depende do esporte público em Itajaí.

Três ginásios, nenhum disponível

O ginásio Julcídio Fernandes, no bairro Cordeiros, está interditado. O Ivo Silveira, no bairro Fazenda, foi demolido. O Gabriel Colares, no Centro, o principal equipamento esportivo da cidade, será tomado pela Justiça Eleitoral para instalação das urnas e só retornará ao município após o segundo turno, em novembro. Três estruturas fora de operação ao mesmo tempo, sem nenhuma alternativa organizada pelo poder público para absorver o impacto.

O que precisa acontecer agora

A resposta imediata está em dois caminhos que podem ser percorridos em paralelo. O primeiro é a contratação de estruturas esportivas particulares para uso temporário. O segundo é o ajuste com as secretarias de educação municipal e estadual para liberar as quadras dos colégios públicos como suporte. Esse segundo caminho exige atenção, pois quadras de colégios públicos demandam contrapartida de reformas para liberação e já funcionam com agendas próprias de uso. Quadras cobertas de colégios particulares raramente se abrem para o poder público, já que receber a prefeitura em suas instalações conflita com o próprio modelo de negócio dessas instituições. O tempo útil para essas negociações está se esgotando. Estruturas privadas fecham suas programações com antecedência e chegará o momento em que não haverá agenda disponível para absorver a demanda do esporte municipal.

A solução que a gestão precisa encarar

A contratação emergencial de empresas especializadas em estruturas pré-moldadas é o caminho mais rápido e viável. Essas empresas entregam galpões em tempo recorde, prontos para serem equipados e adaptados ao uso esportivo. É uma solução legal, eficiente e amplamente utilizada por gestões que compreendem que o esporte público não pode entrar em colapso enquanto a burocracia segue seu ritmo. Se a FMEL ainda não moveu nenhuma peça nessa direção (e há razões concretas para acreditar que não moveu), escolinhas, treinamentos e competições de Itajaí caminham para um colapso que já estava sendo anunciado há tempo suficiente para ser evitado.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
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domingo, 3 de maio de 2026

Marcílio Dias e a outorga onerosa



A Discussão no Marcílio Dias

A diretoria do Clube Náutico Marcílio Dias discute a possibilidade de utilizar o potencial construtivo do terreno do Estádio Doutor Hercílio Luz para viabilizar a modernização da casa do Marinheiro. A abordagem segue o instrumento urbanístico aplicado pelo Club de Regatas Vasco da Gama no Rio de Janeiro.

O Instrumento Urbanístico

A transferência do direito de construir está prevista no Estatuto da Cidade. A Lei Federal nº 10.257, de 2001, regula o mecanismo. No caso de imóveis com restrições de zoneamento ou de interesse público, a operação urbana consorciada permite a venda do potencial não utilizado para outras áreas da cidade. Os recursos gerados pela transferência são aplicados na intervenção pretendida. O Plano Diretor municipal define as regras locais para a outorga onerosa e a transferência de potencial.

O Exemplo do Vasco da Gama

No Rio de Janeiro, a Lei Complementar nº 272, de 2024, instituiu a Operação Urbana Consorciada do Estádio de São Januário. O Vasco da Gama, como proprietário do imóvel, transferiu cerca de 280 mil metros quadrados de potencial construtivo. A estimativa de recursos alcança aproximadamente 500 milhões de reais. Esses valores são destinados integralmente à reforma do complexo, incluindo o estádio, o parque aquático e o entorno. O processo envolve a comercialização do potencial para incorporadoras em áreas receptoras definidas pela lei.

A Proposta para Itajaí

Em Itajaí, o terreno do Gigantão das Avenidas pertence à Prefeitura Municipal e o clube opera sob concessão de uso. A área tem aproximadamente 27 mil metros quadrados e avaliação de mercado em torno de 600 milhões de reais. A Prefeitura contratou estudo técnico por meio da Itajaí Participações, com prazo de três meses e custo estimado de até 500 mil reais. Conforme afirmou o presidente Tarcísio Guedim ao podcast Polilogica, com Jean Sestrem, a diretoria pretende encaminhar um projeto de lei à Câmara de Vereadores por meio do Poder Executivo Municipal. O objetivo é viabilizar a modernização do estádio, com capacidade para até 20 mil torcedores, por meio da transferência de potencial construtivo. O governador Jorginho Mello autorizou, em 2025, a celebração de parcerias público-privadas para a ampliação e modernização do equipamento.

Os Valores e o Comparativo Técnico

A expectativa divulgada é de arrecadação em torno de 100 milhões de reais com o potencial construtivo. Esse montante representa quase um terço do financiamento de US$ 62,5 milhões obtido pelo município junto ao Fonplata, em 2018, para o programa Itajaí 2040 Moderna e Sustentável. O programa abrange infraestrutura urbana, mobilidade, drenagem e espaços de recreação. O estudo em andamento definirá as áreas receptoras e as contrapartidas exatas.

Questão de Prioridade

Cem milhões de reais são uma quantia expressiva, especialmente quando se trata de recursos públicos que poderiam ser direcionados a outras demandas da cidade. Transferir esse montante, por meio de um instrumento urbanístico, para financiar a modernização de um estádio gerido por um clube privado levanta questionamentos sobre a prioridade e a destinação final dos valores. Cabe ao leitor avaliar se direcionar recursos equivalentes a quase um terço do montante obtido via Fonplata para o projeto do novo estádio representa a melhor alocação para o município.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor.
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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Escolinha de Base ou Maquiagem Esportiva


O que o ambiente define antes de qualquer treinador

O desenvolvimento esportivo de uma criança começa antes da primeira instrução técnica. O ambiente em que ela pratica determina o quanto ela consegue absorver, progredir e desenvolver vínculos consistentes com a modalidade. Um polo esportivo estruturado oferece espaço adequado, equipamentos corretos, silêncio funcional e foco pedagógico. Uma escola é um ambiente de trânsito, barulho, recreio, circulação constante de pessoas e estímulos concorrentes. Essas duas realidades produzem experiências completamente diferentes e tratá-las como equivalentes é o primeiro erro da gestão pública esportiva.

Prática esportiva escolar não sistematizada não é iniciação

O que ocorre dentro das escolas fora da aula formal de educação física recebe o nome correto de prática esportiva não sistematizada em contexto escolar. Ela pode ter orientação de um profissional e alguma organização, mas não garante progressão consistente. O controle pedagógico é menor, a interferência do ambiente é constante e a intencionalidade técnica raramente sobrevive à rotina escolar. Essa experiência tem valor como estímulo ao movimento. O problema está em apresentá-la ao gestor e à família como iniciação esportiva real, pois é uma afirmação que não se sustenta tecnicamente.

O que a iniciação esportiva sistematizada exige de verdade

A iniciação esportiva de verdade acontece em ambiente controlado e preparado para isso. Planejamento de aula, progressão técnica e tática, foco na modalidade, equipamentos adequados e menor interferência externa são condições mínimas para que o desenvolvimento infantil dentro do esporte seja consistente e mensurável. Esse nível de organização exige um polo esportivo com estrutura própria, onde a criança chega para treinar e sai com algo concreto desenvolvido naquele dia. A disciplina, o foco e o ambiente correto são variáveis pedagógicas que interferem diretamente na qualidade do aprendizado motor.

A desonestidade do número como resultado

Quando um gestor público utiliza o ambiente escolar para captar crianças em massa, registrá-las em um programa esportivo e apresentar esse volume como prova de iniciação esportiva, está praticando uma inversão de lógica. O número de participantes nunca foi sinônimo de qualidade de desenvolvimento. Encher uma lista com alunos que mal conseguem se concentrar em meio ao barulho do recreio e chamar isso de escolinha de base é uma maquiagem administrativa que prejudica as crianças, engana as famílias e distorce os dados da política pública. O gestor honesto sabe distinguir o que faz do que apenas apresenta.

O papel do poder público é criar a estrutura certa

A obrigação da gestão pública no esporte infantil é gerar condições. Isso significa investir em polos esportivos estruturados, com espaço adequado à modalidade, equipamentos em condições de uso, profissionais qualificados e planejamento pedagógico contínuo. Significa criar um ambiente onde a criança entre com foco, treine com progressão e saia com desenvolvimento real. Projetos esportivos que operam com essa lógica produzem atletas, hábitos e saúde de verdade. Os que operam com a lógica do número produzem relatórios. A diferença entre os dois está na honestidade de quem decide onde e como o esporte público acontece.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
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domingo, 19 de abril de 2026

Esporte: A Barreira Contra as Drogas em Itajaí

 


O Cenário Local e a Proteção Necessária

O avanço das drogas entre os jovens de Itajaí é uma realidade que exige ações concretas da gestão pública. A vulnerabilidade social nas periferias e a busca por aceitação tornam nossos adolescentes alvos fáceis. Nesse contexto, o esporte deixa de ser apenas lazer e se torna uma ferramenta estratégica de segurança pública e saúde. A prática esportiva ocupa o tempo, estabelece metas e cria um senso de identidade que protege o jovem das escolhas de risco.

O Poder da Rotina e da Disciplina

Dentro das quadras e campos da nossa cidade, o jovem aprende o valor do esforço e as consequências da falta de foco. O treinamento exige um corpo saudável e uma mente limpa, o que naturalmente afasta o interesse por substâncias entorpecentes. A disciplina imposta pelo técnico e o respeito aos companheiros de equipe formam o caráter necessário para dizer "não" às pressões externas. O esporte entrega o bem-estar que a droga apenas promete de forma ilusória.

A Responsabilidade da Gestão em Itajaí

A Lei nº 11.343/2006 é clara: o município tem o dever de promover a prevenção. Em Itajaí, temos uma estrutura robusta na FMEL que precisa ser utilizada como escudo. A presença de profissionais como psicólogos e assistentes sociais dentro da fundação permite identificar o jovem em risco antes que ele se perca para o tráfico ou para o vício.

Capacitação Técnica e Olhar Atento

Os professores e técnicos da FMEL precisam estar preparados para atuar como a primeira linha de defesa. Essa preparação ocorre através de treinamentos específicos para identificar sinais de mudanças bruscas de comportamento, queda no rendimento físico ou isolamento social dos alunos. O profissional capacitado sabe abordar o jovem com empatia e autoridade, transformando o treino em um espaço de diálogo e confiança, onde o acolhimento técnico precede o encaminhamento especializado.

Ações Estratégicas e o Futuro da Juventude

A gestão do esporte em Itajaí deve estabelecer protocolos que conectem o aluno em risco imediatamente à rede de apoio municipal. Levar nossas escolinhas para os bairros com maiores índices de criminalidade descentraliza o esporte e ocupa o território com saúde, retirando o espaço do tráfico. Ao transformarmos nossos festivais e competições em vitrines de cidadania, reafirmamos que o caminho do esporte é a única escolha viável. Investir nessas políticas protege a próxima geração de itajaienses e exige gestão focada no dia a dia da nossa cidade.


Airlon Jaques
Profissional Ed. Física, Gestor Público e Escritor.
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