domingo, 4 de outubro de 2026

Quando o exercício vira jogo

 


A dificuldade de manter a rotina

A adesão contínua à atividade física representa um dos maiores desafios enfrentados por profissionais da saúde e do esporte. Muitas pessoas iniciam programas de treinamento com entusiasmo, porém encontram dificuldades para manter a regularidade ao longo dos meses. Essa realidade impulsionou o desenvolvimento de ferramentas capazes de aumentar o envolvimento dos praticantes com seus próprios objetivos.

A ciência da motivação

Grande parte dessas ferramentas encontra fundamento na Teoria da Autodeterminação, desenvolvida pelos pesquisadores Richard Ryan e Edward Deci. Segundo os autores, a motivação humana se fortalece quando três necessidades psicológicas são atendidas: autonomia para realizar escolhas, percepção de competência e conexão social. Esses elementos aparecem de forma recorrente nos estudos que analisam o comportamento de praticantes de atividade física.

A chegada da gamificação ao esporte

A gamificação surgiu como uma estratégia para incorporar elementos tradicionais dos jogos à rotina de treinamento. Pontuações, desafios, medalhas virtuais e sistemas de progressão passaram a fazer parte de aplicativos utilizados por corredores, ciclistas e frequentadores de academias. O objetivo consiste em tornar a experiência mais envolvente e aumentar o comprometimento dos usuários com a prática regular.

O que os aplicativos têm em comum

Uma pesquisa conduzida por Henrique de Campos Junior e Carlos Eduardo Lourenço, da FGV EAESP, identificou características presentes em diferentes aplicativos de atividade física. Pontos, curtidas, premiações e rankings apareceram como elementos recorrentes entre as plataformas analisadas. O estudo demonstra que o mercado adotou uma estrutura relativamente semelhante para estimular o engajamento dos usuários.

O exemplo do Strava

Entre os aplicativos mais conhecidos, o Strava tornou-se uma das principais referências em gamificação esportiva. Um estudo publicado em 2025 por Daniela Morgana Wilbert e Luciane Pereira Viana observou que desafios, recompensas e mecanismos de interação contribuíram para aumentar o engajamento dos corredores avaliados. Os resultados também apontaram fortalecimento do senso de comunidade entre os participantes observados na pesquisa.

O papel da interação social

Parte do sucesso dessas plataformas está relacionada à influência exercida pelos grupos sociais. O compartilhamento de resultados, o acompanhamento das atividades realizadas e a participação em desafios coletivos criam um ambiente capaz de estimular a continuidade da prática esportiva. Mesmo entre usuários que treinam sozinhos, a presença de uma comunidade virtual costuma funcionar como fator adicional de motivação.

O que a literatura científica permite concluir

Os estudos disponíveis apontam resultados positivos para a adesão ao exercício físico. Usuários costumam registrar maior frequência de participação e maior envolvimento com suas metas pessoais. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa das pesquisas ainda utiliza amostras reduzidas, estudos de caso ou análises de mercado. Esse cenário recomenda cautela na interpretação dos resultados e indica a necessidade de investigações mais amplas sobre os efeitos de longo prazo da gamificação.

Uma tendência que continua crescendo

A popularização dos aplicativos esportivos mostra que a tecnologia passou a ocupar um espaço relevante na relação entre as pessoas e o exercício físico. A combinação entre metas, acompanhamento de desempenho e interação social tem demonstrado capacidade de aumentar o interesse dos praticantes pela atividade física. Os próximos anos deverão mostrar até que ponto essas ferramentas conseguirão transformar engajamento digital em hábitos permanentes de saúde e qualidade de vida.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 27 de setembro de 2026

Crédito de carbono a serviço do esporte

 


Um mercado que movimenta bilhões

O crédito de carbono surgiu como um instrumento econômico voltado à redução das emissões de gases de efeito estufa. Cada crédito corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. A Lei Federal nº 15.042, sancionada em 2024, consolidou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões e reconheceu o mercado voluntário de carbono, permitindo que proprietários, concessionários ou legítimos detentores de projetos ambientais comercializem créditos gerados a partir de reduções comprovadas de emissões.

O esporte já participa desse mercado

O setor esportivo internacional já incorporou o tema climático às suas estratégias de sustentabilidade. Jogos Olímpicos, Copas do Mundo e grandes eventos esportivos utilizam créditos de carbono para compensar parte de suas emissões. Paris 2024 adquiriu mais de um milhão de toneladas em créditos provenientes de projetos ambientais, enquanto Tóquio recorreu a mecanismos semelhantes em escala ainda maior. O fluxo financeiro dessas operações costuma beneficiar iniciativas ambientais desvinculadas do esporte, fazendo com que os recursos saiam do ambiente esportivo sem produzir retorno direto para clubes, federações ou entidades de formação.

Uma oportunidade ainda pouco explorada

A pesquisa sobre o tema revela uma possibilidade interessante. Em vez de atuar apenas como comprador, o esporte pode assumir a posição de desenvolvedor de projetos ambientais aptos à geração de créditos de carbono. Até onde foi possível verificar nas fontes consultadas, não há registros amplamente documentados de clubes, federações ou fundações esportivas brasileiras comercializando créditos originados em projetos próprios certificados. Esse cenário abre espaço para uma agenda inovadora de financiamento esportivo vinculada à preservação ambiental.

A conexão entre esporte e recuperação ambiental

Diversas modalidades possuem relação direta com ambientes naturais que dependem de conservação permanente. Clubes náuticos convivem diariamente com ecossistemas costeiros. Entidades ligadas ao ciclismo e às atividades de aventura utilizam áreas que dependem da manutenção da cobertura vegetal e da qualidade dos recursos hídricos. Essa proximidade cria condições favoráveis para o desenvolvimento de projetos de restauração ambiental capazes de atender metodologias reconhecidas internacionalmente para geração de créditos de carbono.

Um novo modelo de financiamento esportivo

A venda de créditos pode representar uma fonte complementar de receita para entidades esportivas. Os recursos obtidos poderiam financiar programas de formação, manutenção de estruturas esportivas ou iniciativas de desenvolvimento comunitário. O diferencial do esporte está justamente na capacidade de gerar benefícios sociais paralelamente aos benefícios ambientais. Projetos que associam preservação ambiental à inclusão de jovens, participação comunitária e educação costumam apresentar valor adicional dentro de determinados sistemas de certificação.

O papel das federações e das prefeituras

A estrutura federativa do esporte oferece uma vantagem relevante. Federações podem coordenar projetos envolvendo diversas entidades filiadas, criando escala suficiente para viabilizar processos de certificação que seriam inviáveis para clubes isolados. Os municípios também possuem espaço para atuação. A legislação brasileira permite que entes públicos desenvolvam projetos ambientais em áreas sob sua administração e comercializem os créditos resultantes. O histórico do Aterro Bandeirantes, em São Paulo, demonstra que governos locais já foram capazes de transformar ativos ambientais em receitas significativas.

Uma oportunidade para os fundos municipais de esporte

O debate torna-se ainda mais interessante quando observamos os mecanismos de financiamento esportivo existentes no Brasil. A criação ou fortalecimento de Fundos Municipais de Esporte pode abrir caminho para que receitas provenientes de projetos de carbono sejam direcionadas ao desenvolvimento esportivo local. Essa alternativa exigiria legislação específica e adequado planejamento jurídico, mas permitiria conectar sustentabilidade ambiental, financiamento público e políticas esportivas de longo prazo.

Uma agenda para o futuro

O esporte brasileiro costuma discutir patrocínios, convênios e leis de incentivo como principais fontes de financiamento. O mercado de carbono acrescenta uma possibilidade ainda pouco explorada a esse debate. A combinação entre preservação ambiental, geração de receita e fortalecimento institucional oferece uma oportunidade que merece atenção de gestores esportivos, dirigentes de entidades e administradores públicos. Em um cenário de crescente valorização dos ativos ambientais, transformar conservação em investimento pode representar uma das ideias mais promissoras para o financiamento do esporte nas próximas décadas.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 20 de setembro de 2026

Qual é a maior qualidade de um atleta?

 


Muito além da capacidade natural

O talento desperta admiração porque costuma aparecer cedo e ser facilmente percebido. Alguns atletas demonstram qualidades diferenciadas logo nos primeiros contatos com a modalidade, o que frequentemente gera a impressão de que o sucesso esportivo está determinado desde o início. A trajetória dos grandes competidores mostra uma realidade mais complexa, na qual a capacidade natural representa apenas o ponto de partida de um processo construído ao longo de muitos anos.

A construção do desempenho

A ciência do treinamento demonstra que a evolução esportiva ocorre por meio de adaptações acumuladas ao longo do tempo. O desenvolvimento físico exige repetição e continuidade, enquanto a evolução técnica depende da consolidação progressiva de habilidades específicas. Cada sessão de treinamento acrescenta um pequeno elemento a essa construção, formando uma base que se fortalece gradualmente e sustenta níveis cada vez mais elevados de desempenho.

O fator presente nas grandes trajetórias

Ao observar carreiras esportivas bem-sucedidas, uma característica aparece de forma recorrente. Ela está presente nos atletas que continuam treinando durante períodos de pouca evolução aparente e também naqueles que conseguem atravessar fases difíceis sem abandonar seus objetivos. Trata-se do compromisso com o processo de preparação, uma virtude que mantém o atleta conectado ao caminho escolhido mesmo quando os resultados ainda não são visíveis.

O valor dos dias comuns

A imagem pública do esporte costuma estar associada às conquistas que ganham destaque diante do público. O crescimento esportivo, porém, acontece principalmente durante os dias comuns, quando não existem aplausos nem reconhecimento externo. É nesse ambiente que a regularidade se torna decisiva, permitindo que o trabalho realizado diariamente produza resultados que só serão percebidos muito tempo depois.

Quando surgem as dificuldades

Nenhuma trajetória esportiva evolui de forma perfeitamente linear. Em determinados momentos surgem obstáculos capazes de gerar dúvidas sobre a continuidade do trabalho. Nesses períodos, a permanência no processo passa a depender muito mais da postura adotada pelo atleta do que das circunstâncias que o cercam, pois é justamente diante das dificuldades que a dedicação revela seu verdadeiro valor.

A base para desenvolver outras qualidades

Força, resistência e técnica dependem de treinamento adequado para atingir níveis elevados de desenvolvimento. A evolução dessas capacidades está diretamente ligada à disposição de permanecer treinando de forma consistente ao longo dos anos. O compromisso ocupa uma posição central nessa dinâmica porque fornece a estabilidade necessária para que as demais qualidades continuem amadurecendo.

A superação dos próprios limites

Nenhum atleta escolhe a genética que recebeu ou as condições encontradas no início da carreira. Ainda assim, a história do esporte mostra que o potencial humano raramente é conhecido nos primeiros estágios da formação esportiva. A dedicação contínua amplia as possibilidades de crescimento e permite que muitos praticantes alcancem resultados que pareciam distantes quando iniciaram sua caminhada.

A verdadeira vantagem competitiva

O esporte oferece inúmeros exemplos de atletas talentosos. As trajetórias que mais impressionam costumam ser aquelas marcadas por anos de dedicação constante, construídas por pessoas que permaneceram comprometidas com sua preparação independentemente das circunstâncias encontradas pelo caminho. Por essa razão, o compromisso pode ser considerado uma das qualidades mais valiosas do ambiente esportivo, pois sustenta o desenvolvimento de todas as outras e transforma potencial em realização.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 13 de setembro de 2026

Quem pode usar o patrimônio esportivo público?

 


O dever de tratar todos de forma igual

Os equipamentos esportivos municipais pertencem à coletividade. Quando uma prefeitura constrói ou mantém qualquer estrutura esportiva, ela o faz com recursos públicos e para atender ao interesse público. Essa característica impõe ao gestor esportivo a obrigação de adotar critérios objetivos para definir quem poderá utilizar esses espaços e em quais condições ocorrerá essa utilização.

A exigência da impessoalidade

A Constituição Federal estabelece o princípio da impessoalidade como uma das bases da Administração Pública. Na prática, isso significa que o acesso a um equipamento público não pode depender da proximidade com gestores, da influência política de uma entidade ou da relação pessoal existente com agentes públicos. A decisão administrativa precisa estar vinculada a critérios previamente definidos e aplicáveis a todos os interessados.

O papel do gestor esportivo

A responsabilidade pela organização desses espaços recai diretamente sobre os dirigentes da política esportiva municipal. Cabe ao secretário de esportes, superintendente ou presidente de fundação estabelecer regras claras para reserva, utilização, horários disponíveis e prioridades de atendimento. A ausência desses critérios cria insegurança administrativa e amplia o risco de questionamentos sobre a legalidade das decisões adotadas.

A importância das regras públicas

A transparência protege tanto a comunidade quanto a própria administração. Quando os critérios de utilização são divulgados oficialmente, todos os interessados passam a conhecer as condições exigidas para acessar o patrimônio público. Essa publicidade reduz conflitos, fortalece a confiança na gestão e permite que as decisões sejam compreendidas pela população.

O risco das decisões subjetivas

Toda vez que um espaço público é concedido sem critérios claros surge uma pergunta inevitável: por que uma pessoa ou entidade recebeu autorização enquanto outra ficou de fora? A falta de resposta objetiva para essa questão fragiliza a decisão administrativa e abre espaço para questionamentos sobre favorecimento, por exemplo.

A fiscalização dos atos administrativos

O uso dos equipamentos esportivos públicos está sujeito aos mecanismos de controle existentes na Administração Pública. Qualquer cidadão ou entidade possui legitimidade para questionar decisões que aparentem contrariar os princípios da legalidade, da impessoalidade ou da transparência. Quanto mais consistente for a fundamentação utilizada pela gestão, menor será a exposição a esse tipo de contestação.

Governança e segurança jurídica

Uma política moderna de gestão esportiva depende de regulamentos bem estruturados. Editais de utilização, sistemas públicos de agendamento e critérios formalmente estabelecidos contribuem para organizar a demanda e reduzir conflitos. Além de melhorar a eficiência da gestão, esses instrumentos oferecem segurança jurídica para os usuários e para os próprios gestores responsáveis pela administração do patrimônio esportivo.

O patrimônio que pertence à população

O verdadeiro desafio da gestão esportiva municipal nessa questão está na forma de como esses espaços são administrados, pois isso causa impacto direto na credibilidade das políticas públicas. Quando o acesso ocorre por regras claras, transparentes e impessoais, o patrimônio público cumpre sua finalidade social e fortalece a confiança da comunidade na administração municipal. Já quando não é bem executado, pode inclusive incorrer em improbidade administrativa.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 6 de setembro de 2026

O mito do atleta completo

 


O corpo aprende aquilo que pratica

Uma das crenças mais difundidas no esporte é a ideia de que um grande atleta estará preparado para qualquer desafio físico. A realidade da fisiologia humana segue um caminho diferente. O organismo adapta-se aos estímulos que recebe ao longo do treinamento e passa a desenvolver características específicas para atender às exigências da modalidade praticada. Esse fenômeno, conhecido como princípio da especificidade, explica por que atletas de alto rendimento podem apresentar desempenhos extraordinários em determinadas tarefas e resultados apenas modestos em outras.

A fábrica de movimento do corpo humano

Toda contração muscular depende das fibras musculares esqueléticas. Essas fibras podem ser divididas em dois grandes grupos. As fibras do Tipo I apresentam elevada resistência à fadiga e grande eficiência no uso do oxigênio para produção de energia. As fibras do Tipo II possuem contração mais rápida e maior capacidade de gerar força e potência. Dentro desse segundo grupo, as fibras IIa ocupam uma posição intermediária, enquanto as IIx representam a forma mais explosiva e potente do sistema muscular humano.

A especialização das modalidades esportivas

Cada modalidade impõe exigências fisiológicas próprias. O maratonista precisa sustentar esforço contínuo durante longos períodos, o que favorece o desenvolvimento das fibras mais resistentes e eficientes do ponto de vista aeróbico. O lutador enfrenta uma realidade completamente diferente. Seus movimentos exigem acelerações rápidas, mudanças bruscas de intensidade e produção instantânea de força. O treinamento direciona o organismo para atender exatamente essas necessidades.

A adaptação que transforma o atleta

O treinamento produz alterações profundas no funcionamento muscular. As fibras IIa possuem grande capacidade de adaptação e respondem de forma diferente conforme o estímulo recebido. Treinos voltados para resistência aumentam suas características aeróbicas. Treinos focados em força e potência reforçam seu comportamento explosivo. Essa plasticidade ajuda a explicar por que atletas de modalidades distintas desenvolvem perfis físicos tão diferentes ao longo da carreira.

O limite imposto pela genética

A ciência demonstra que o treinamento modifica significativamente o desempenho esportivo, mas não altera completamente a estrutura biológica de cada indivíduo. A proporção entre fibras lentas e rápidas possui forte influência genética. Alguns atletas nascem com características mais favoráveis para provas de resistência. Outros apresentam uma predisposição natural para modalidades que exigem velocidade e potência. O treinamento potencializa essas qualidades, mas não elimina as diferenças de origem.

O preço da especialização

O alto rendimento exige escolhas fisiológicas. Quando o corpo é constantemente preparado para sustentar esforço prolongado, parte das características relacionadas à explosão muscular perde relevância funcional. O mesmo ocorre em sentido inverso. O atleta treinado para produzir potência máxima desenvolve adaptações diferentes daquelas necessárias para manter um ritmo estável durante várias horas. A especialização cria excelência em uma direção específica do desempenho humano.

O que isso ensina aos praticantes

Essa realidade ajuda a compreender por que comparações entre modalidades costumam gerar conclusões equivocadas. O maratonista não foi preparado para lutar. O lutador não foi preparado para correr uma maratona. Ambos desenvolveram capacidades extraordinárias dentro das exigências de seus esportes. O verdadeiro vigor físico representa a capacidade de responder com eficiência ao desafio para o qual o corpo foi treinado.

A lição da fisiologia esportiva

O esporte moderno confirma diariamente uma das regras mais importantes da ciência do treinamento: o organismo adapta-se ao estímulo que recebe. A excelência esportiva surge quando treinamento, características biológicas e exigências da modalidade caminham na mesma direção. Um praticante recreativo pode combinar modalidades distintas e desenvolver competências variadas ao mesmo tempo. No alto rendimento, porém, a especialização passa a dominar o processo de preparação. As adaptações necessárias para alcançar desempenho de elite em uma maratona são diferentes daquelas exigidas para atingir excelência em uma luta. É justamente essa combinação entre especificidade, treinamento e características individuais que transforma pessoas comuns em atletas capazes de realizar feitos que parecem impossíveis para a maioria da população.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Instagram: @airlonjaques



domingo, 30 de agosto de 2026

Lealdade política no esporte

 


A razão de existir dos cargos de confiança

Os cargos de confiança foram criados para permitir que governantes eleitos formem equipes alinhadas ao projeto político escolhido pela população nas urnas. Como defendido no livro Cargos de Confiança, a confiança constitui o elemento central dessa relação, pois o governante precisa contar com pessoas comprometidas com a execução das diretrizes que pretende implementar ao longo do mandato. A lealdade política e administrativa integra a própria natureza dessas funções.

O alinhamento esperado dentro do governo

Essa característica torna natural que ocupantes de cargos comissionados desenvolvam proximidade política com quem realizou sua indicação e com o prefeito responsável pela condução do governo. Na Fundação Municipal de Esporte e Lazer de Itajaí, essa lógica não é diferente. O comissionado é chamado para ajudar a executar uma determinada visão de gestão esportiva e sua permanência no cargo depende justamente da confiança existente nessa relação.

O esporte e a construção das relações políticas

A política esportiva aproxima diariamente o governo e a comunidade esportiva. Ao longo do mandato, essa convivência produz avaliações sobre o trabalho realizado pela administração e influencia a forma como as pessoas enxergam seus gestores. Trata-se de uma consequência natural da atividade pública em uma área que mantém contato permanente com a população.

O apoio que nasce da experiência prática

Quem participa do ambiente esportivo acompanha de perto a qualidade das políticas públicas oferecidas pelo município. A percepção sobre o desempenho da gestão é construída a partir da experiência vivida por cada cidadão dentro dessa estrutura. Essa avaliação influencia naturalmente o posicionamento político de parte da comunidade esportiva durante o período eleitoral.

A liberdade de escolha permanece preservada

Essa dinâmica não altera a autonomia política dos cidadãos. Atletas, professores, técnicos e demais participantes das políticas públicas esportivas continuam livres para definir seus posicionamentos eleitorais de acordo com suas convicções pessoais. O mesmo princípio alcança os ocupantes de cargos comissionados, que mantêm seus direitos políticos assegurados pela legislação brasileira.

Os limites estabelecidos pela lei

A legislação eleitoral estabelece regras destinadas a proteger a igualdade da disputa e a liberdade do eleitor. O apoio político é legítimo e a participação eleitoral também integra os direitos garantidos aos cidadãos. A atenção jurídica concentra-se na utilização da estrutura pública para obtenção de vantagens eleitorais, situação que pode gerar responsabilização para os envolvidos.

A confiança que sustenta a democracia

A relação entre governo e comunidade esportiva alcança maior estabilidade quando é construída sobre resultados concretos e confiança institucional. O apoio político adquire legitimidade quando decorre da avaliação livre realizada pelos cidadãos sobre a atuação da gestão pública. Nesse ambiente, os cargos de confiança cumprem sua finalidade administrativa, a comunidade preserva sua liberdade de escolha e o processo democrático mantém sua integridade.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor
Autor do livro Cargos de Confiança
Instagram: @airlonjaques



domingo, 23 de agosto de 2026

O prefeito das inaugurações futuras

 


A inflação das promessas

Existe um fenômeno conhecido na gestão pública, a inflação das promessas. Ela ocorre quando o volume de anúncios cresce mais rápido que a capacidade administrativa de execução. Cada novo compromisso amplia a expectativa social, aumenta a cobrança pública e eleva o nível de responsabilidade política do governante. Em determinado momento, a população passa a dedicar mais atenção ao andamento dos projetos do que aos anúncios que lhes deram origem.

O esporte como vitrine de governo

Poucas áreas oferecem tanto retorno político quanto o esporte. A inauguração de uma arena gera visibilidade, a entrega de um ginásio fortalece a imagem da gestão e um programa esportivo amplia a presença do governo junto à comunidade. Essa característica faz do esporte um dos instrumentos mais utilizados para comunicar perspectivas de futuro e demonstrar prioridades administrativas.

O caso da gestão Robison Coelho

Após um ano e sete meses de mandato, a gestão do prefeito Robison Coelho já acumula um conjunto expressivo de anúncios relacionados ao esporte municipal. A comunidade esportiva acompanhou a apresentação dessas propostas e aguardou sua evolução ao longo do governo. O que se observa até aqui é um volume de entregas significativamente menor do que a expectativa criada pelas promessas apresentadas à população, circunstância que naturalmente amplia o debate sobre a capacidade de execução da atual administração.

A armadilha criada pelo próprio governo

Todo anúncio público gera uma obrigação política futura. Cada compromisso assumido amplia a necessidade de demonstrar avanços concretos e prestar contas sobre sua evolução. Quando os compromissos se acumulam em ritmo superior aos resultados percebidos pela população, o próprio governo passa a conviver com uma cobrança crescente produzida pelas expectativas que ajudou a construir.

O desgaste da credibilidade

A credibilidade governamental é formada pela relação entre aquilo que a administração anuncia e aquilo que a população consegue identificar na realidade cotidiana. Projetos esportivos permanecem na memória coletiva da cidade porque envolvem demandas históricas da comunidade. Quanto maior o intervalo entre a apresentação de uma proposta e sua efetiva materialização, maior tende a ser o desgaste da confiança depositada na gestão.

A responsabilidade do prefeito

A política esportiva municipal reflete as prioridades estabelecidas pelo chefe do Poder Executivo. Por essa razão, a avaliação sobre o desempenho da área alcança diretamente o prefeito Robison Coelho. O estágio atual dos projetos anunciados para o esporte integra o conjunto de indicadores pelos quais sua administração será analisada ao longo do mandato.

O julgamento do mandato

A memória administrativa de uma cidade é construída pelas transformações incorporadas ao seu cotidiano. No esporte, essa percepção surge a partir das estruturas disponíveis para utilização da população e das políticas públicas que alcançam a comunidade. A gestão Robison Coelho será lembrada pela capacidade de converter as expectativas que gerou em resultados efetivamente presentes na vida esportiva de Itajaí.


Airlon Jaques
Profissional de Educação Física, Gestor Público e Escritor.
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