quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O risco de privatizar o esporte público



As promessas da terceirização
Cada vez mais cidades brasileiras discutem terceirizar ou conceder à iniciativa privada a gestão de espaços, eventos e até programas esportivos municipais. O discurso é tentador. Melhorar a eficiência, trazer investimentos sem onerar o caixa público e profissionalizar a operação de arenas e centros esportivos. O exemplo do Pacaembu em São Paulo, entregue à iniciativa privada, costuma ser citado como modelo de modernização.

O lado que não aparece nos anúncios
Na prática, os riscos superam as promessas quando falamos de políticas esportivas. Acesso gratuito ou a preços populares muitas vezes é reduzido, vagas em escolinhas comunitárias desaparecem e contratos mal fiscalizados acabam transformando o que era público em vitrine comercial. O que começa como promessa de inovação pode virar exclusão, principalmente para quem mais depende do esporte como ferramenta social.

A captura pelo mercado
Outro problema é a concentração de poder. Poucas empresas ou entidades acabam dominando a gestão, impondo tarifas e critérios que deixam o interesse social em segundo plano. O esporte deixa de ser política pública e vira produto. Isso se agrava quando os contratos são longos e sem metas claras de inclusão. A prefeitura, que deveria ser a guardiã do acesso, perde protagonismo e se torna refém do concessionário.

Exemplos internacionais
Modelos como o Sports Hub em Singapura mostram que a privatização pode trazer grandes estruturas modernas, mas até lá as críticas se repetem. O uso popular fica restrito, a prioridade são eventos comerciais de alto valor e a população que sustentou o espaço com impostos passa a ser apenas espectadora de longe. O mesmo risco se aplica a cidades brasileiras de médio porte, que não possuem nem a mesma fiscalização, nem a mesma capacidade de negociação.

O que está em jogo em Itajaí e no Brasil
Se esse caminho avançar, programas como escolinhas de base, bolsas esportivas e a própria participação das cidades em jogos oficiais podem sair do controle direto da gestão pública. O problema não é só perder espaços, mas perder a função social do esporte. É a criança do bairro que deixa de ter a quadra gratuita, é o professor comunitário que perde espaço para instrutores terceirizados, é o atleta local que fica sem bolsa porque o recurso foi redirecionado para cobrir custo de contrato.

O mito do privatiza tudo
Há quem defenda que a solução é privatizar tudo, mas esse discurso ignora o papel social do esporte. Empresas trabalham para gerar lucro, não para manter inclusão. O barato pode sair caro, porque tarifas e mensalidades substituem o investimento público. E uma vez terceirizado, o município perde o controle, ficando preso a contratos longos e pouco flexíveis. Nem toda política pública pode ser tratada como negócio, porque cidadania não se mede por balanço financeiro.

Um alerta necessário
O esporte público nasceu para ser ferramenta de inclusão, não de segregação. O gestor pode até se encantar com a promessa de eficiência da privatização, mas precisa lembrar que nem sempre o que é eficiente para o mercado é justo para a sociedade. A crença de que um contrato bem amarrado resolverá todos os problemas também é ilusória, porque na prática cláusulas podem ser descumpridas, fiscalizações falham e disputas judiciais costumam favorecer quem tem mais recursos. O esporte precisa de políticas firmes, transparentes e conduzidas pelo poder público, com parcerias bem-vindas desde que respeitem o interesse coletivo. Entregar tudo à iniciativa privada pode ser um atalho perigoso que custa caro no futuro.


Airlon Jaques
Educador Físico, Gestor Público e Escritor.
Instagram: @airlonjaques


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